Eu estava na academia do Leblon, entre uma série e outra, e o assunto do salão não era treino nem dieta: era a noite que a Visionary Brazil armou na quarta, dia 12, com o Conselho Brasileiro de Moda. Larguei o halter. Reunião de gente grande sempre me interessa mais do que abdominal.
O motivo do encontro foi a vinda ao Brasil de Adriana Pereira e Kerry Murphy, cofundadores da The Fabricant, empresa holandesa que trabalha exatamente na costura entre moda e tecnologia. Quem encabeçou a articulação foi Olivia Merquior, diretora executiva do Conselho Brasileiro de Moda. O tema oficial: o impacto da inteligência artificial no mercado internacional.




Agora, meus amores, a lista de presença é que entrega o tamanho da conversa.
Passaram por lá Oskar Metsavaht, da Osklen, Daniela Lupo, do conselho de administração da Lupo, Taciana Abreu, diretora de sustentabilidade da Riachuelo, Luara Proença, gerente sênior de estilo da C&A, Patricia Gazale, gerente comercial da Lacoste Brasil, Matheus Diogo Fagundes, presidente global da Audaces, Newton Coelho, diretor de tecnologia da Santista, Aurea Yamashita, da ABEST, Juliana D’Auria, da Aramis, Augusto Mariotti, do FFW, Stella Sunaga, da NK, Carolina Galvão, da Grendene, Felipe e Juliana Matayoshi, da PACE, e Eduardo Kyrillos, cofundador da Real Capital Partners e do Grupo Icomm.
Marca grande, indústria, tecnologia e dinheiro na mesma sala, servidos com taça na mão. Se inteligência artificial ainda parecia conversa de feira de tecnologia, alguém esqueceu de avisar o povo da moda.




A discussão girou em torno de ferramentas de otimização e da aplicação das novas tecnologias em diferentes pontos da cadeia da moda brasileira, passando pela educação e chegando aos negócios de diferentes tamanhos.
Traduzindo do idioma corporativo enquanto eu fingia que voltaria para a próxima série: como a indústria brasileira vai usar tudo isso sem chegar atrasada de novo.
Ana Isabel de Carvalho Pinto, fundadora da Visionary Brazil e signatária do Conselho Brasileiro de Moda, foi quem cravou a tese da noite. Segundo ela, o acesso ao repertório internacional em tecnologia virou um dos pontos mais críticos para marcas emergentes, que raramente conseguem ocupar mesas onde essas transformações começam a ser discutidas.
E ela foi além. Na visão da empresária, impulsionar um negócio não se resolve apenas colocando dinheiro na mesa. Também passa por garantir que designers e marcas brasileiras estejam dentro da sala quando as decisões e as novas possibilidades começam a aparecer.
Aí veio a frase que, anotem o que estou falando, ainda vai parar em muito slide de apresentação até dezembro:
“A tecnologia deixou de ser um departamento e virou linguagem.”
Eu larguei o halter de vez nessa hora, porque a frase explica bem o tamanho da mudança. Inteligência artificial já não está só naquele departamento que alguém chama quando precisa automatizar planilha. Está entrando na criação, na produção, na venda, no relacionamento com consumidor e até na própria ideia do que é uma roupa.
E vale lembrar quem está puxando essa conversa. A Visionary Brazil é um venture studio dedicado à economia criativa, trabalhando da construção de marca ao planejamento financeiro e aos canais de venda, numa tentativa de aproximar criatividade e capital.
Ana Isabel também tem quilometragem nesse cruzamento entre moda e transformação tecnológica. Ela foi cofundadora da Shop2gether e da OQVestir, precursoras da venda de moda pela internet no Brasil.
Ou seja, a mulher já estava sentada nessa mesa quando muita gente ainda jurava que brasileiro jamais compraria vestido pela internet sem entrar no provador.
Eu voltei para o aparelho pensando que talvez seja exatamente por isso que essa reunião mereça atenção. O mercado da moda já precisou aprender, na marra, que o consumidor compraria roupa pelo computador e depois pelo celular. Agora aparece outra mudança batendo na porta.

Dessa vez, Osklen, Lupo, Riachuelo, C&A, Lacoste, Grendene e companhia já estão sentadas na sala.
Quem ainda estiver discutindo se inteligência artificial é moda passageira talvez descubra que, nesse caso, a moda já trocou de coleção.