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Kátia Flávia
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IA aumenta pressão sobre energia e acende debate sobre quem deve pagar a conta

Consumo global de eletricidade dos data centers deve mais que dobrar até 2030; expansão da inteligência artificial pode exigir novos investimentos em geração, transmissão e infraestrutura elétrica

Kátia Flávia

24/08/2026 15h30

Fernando Botarro Filho alerta que o avanço da inteligência artificial exigirá planejamento para evitar que a infraestrutura elétrica se transforme em um gargalo. Créditos: Acervo Pessoal / Divulgação

Fernando Botarro Filho alerta que o avanço da inteligência artificial exigirá planejamento para evitar que a infraestrutura elétrica se transforme em um gargalo. Créditos: Acervo Pessoal / Divulgação

A corrida pela inteligência artificial está criando uma disputa que vai além dos chips e da capacidade de processamento. À medida que empresas ampliam data centers para atender à crescente demanda por sistemas de IA, aumenta também a necessidade de eletricidade, infraestrutura de transmissão e investimentos capazes de suportar cargas cada vez maiores.

O cenário já provoca discussões sobre quem deverá arcar com essa expansão. Nos Estados Unidos, o Congresso analisa uma proposta que busca evitar que famílias e pequenos negócios assumam indiretamente os investimentos necessários para atender à demanda energética dos grandes centros de dados. A discussão envolve fazer com que os responsáveis por esses empreendimentos assumam custos relacionados à geração, transmissão e outras melhorias necessárias na rede elétrica.

A preocupação acompanha as projeções de crescimento do setor. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo global de eletricidade dos data centers deve mais que dobrar até 2030 e alcançar aproximadamente 945 terawatts-hora (TWh). A inteligência artificial é apontada como o principal vetor desse avanço.

Para o engenheiro eletricista, eletrônico e de telecomunicações Fernando Botarro Filho, a discussão não pode considerar apenas a eletricidade utilizada diretamente pelos computadores.

“Não estamos falando apenas de um computador processando uma informação, mas de milhares de servidores e aceleradores trabalhando em conjunto, além de toda a infraestrutura necessária para manter esses equipamentos funcionando de forma contínua”, explica.

IA exige muito mais do que servidores

Uma simples interação com uma ferramenta de inteligência artificial depende de uma cadeia de equipamentos instalada em grandes centros de processamento. Além de servidores e aceleradores, há sistemas de refrigeração, fontes de alimentação ininterrupta (UPS), transformadores, bombas, ventilação, distribuição elétrica, segurança e sistemas de controle.

Segundo Botarro, um dos pontos de atenção é justamente o aumento da densidade de potência dos racks, estruturas que concentram os equipamentos de processamento.

“A expansão da IA não significa simplesmente construir mais salas com mais computadores. Precisamos de uma infraestrutura elétrica e de climatização capaz de atender cargas muito mais concentradas”, afirma.

Quanto maior a capacidade computacional instalada em determinado espaço, maior também é a quantidade de calor produzida. Isso eleva as exigências de refrigeração e torna mais complexa a infraestrutura necessária para manter os equipamentos operando continuamente.

O problema não é apenas gerar energia

O avanço dos data centers também cria outro desafio: a eletricidade precisa estar disponível exatamente onde esses empreendimentos serão construídos.

Dependendo da potência demandada e da localização escolhida, a instalação pode exigir reforços ou ampliações de subestações, linhas de transmissão e sistemas de distribuição.

“Não basta existir energia disponível no sistema; é preciso verificar se existe capacidade de entregar essa energia exatamente no ponto onde o data center será instalado, com o nível de confiabilidade exigido pela operação”, explica Botarro.

A questão se torna especialmente relevante porque os cronogramas do setor tecnológico e da infraestrutura elétrica são diferentes. Enquanto novos projetos de inteligência artificial podem avançar rapidamente, grandes obras de energia dependem de planejamento, licenciamento e construção.

A IEA alerta que novas linhas de transmissão podem levar de quatro a oito anos para serem desenvolvidas em economias avançadas, enquanto data centers podem entrar em operação em prazos menores.

Quem paga essa conta?

A expansão necessária para atender aos grandes consumidores abre uma discussão econômica e regulatória: se a chegada de um data center exigir novas subestações, linhas de transmissão ou reforços na rede, quem deverá pagar por essas obras?

No Brasil, Botarro explica que não existe uma resposta única. As responsabilidades dependem das características da conexão, das obras necessárias e das regras regulatórias aplicáveis.

“Não seria correto simplesmente afirmar que todo investimento provocado por um data center será automaticamente pago pelo próprio empreendimento, nem que será necessariamente repassado aos demais consumidores”, afirma.

Para o engenheiro, um dos pontos fundamentais é identificar de maneira transparente quais investimentos beneficiam o sistema elétrico como um todo e quais decorrem diretamente da chegada de um consumidor de grande porte.

Essa separação coloca no centro da discussão o conceito de justiça tarifária.

“Até que ponto o consumidor residencial ou uma pequena empresa deve participar de custos associados à chegada de um empreendimento de consumo extraordinariamente elevado?”, questiona Botarro.

Brasil pode criar novas regras?

Com a expansão dos centros de processamento, também surge espaço para discutir mecanismos regulatórios específicos para consumidores com demandas muito elevadas.

Segundo Botarro, isso não significa necessariamente estabelecer uma tarifa exclusiva para data centers. Uma alternativa seria desenvolver critérios que levassem em consideração potência demandada, localização do empreendimento, perfil de consumo, necessidade de reforços na rede, confiabilidade exigida e investimentos necessários para a conexão.

“O objetivo não deve ser dificultar a implantação de data centers, mas fazer com que seu crescimento aconteça de maneira planejada, sustentável e tecnicamente responsável”, afirma.

Esse planejamento também poderia trazer maior previsibilidade para investidores e, ao mesmo tempo, reduzir o risco de que os custos associados a grandes cargas provoquem desequilíbrios no sistema.

Brasil tem energia para a inteligência artificial?

Apesar dos desafios, Botarro avalia que o Brasil tem condições de acompanhar o crescimento dos data centers e da inteligência artificial. Isso, porém, exigirá planejamento integrado.

A expansão não depende somente de aumentar a geração. Será necessário coordenar investimentos em geração, transmissão, distribuição, armazenamento e eficiência energética, além de avaliar estrategicamente onde os grandes centros de processamento serão instalados.

“Uma carga de centenas de megawatts não pode ser instalada em qualquer ponto da rede sem considerar a capacidade existente e os investimentos necessários”, afirma.

Para o engenheiro, o maior problema, portanto, pode não ser o volume absoluto de eletricidade consumido pela inteligência artificial, mas a diferença entre a velocidade de expansão da tecnologia e a capacidade de adaptação da infraestrutura.

“O maior risco não é a inteligência artificial consumir muita energia. O maior risco é a demanda crescer mais rapidamente do que nossa capacidade de planejar e implantar a infraestrutura necessária.”

Se houver antecipação, Botarro considera que o aumento da demanda pode representar também uma oportunidade para o país, estimulando investimentos e modernização da infraestrutura elétrica.

“Se houver planejamento adequado, o Brasil pode transformar essa demanda em uma oportunidade de investimento, desenvolvimento tecnológico e fortalecimento da nossa infraestrutura. Mas isso exige antecipação: precisamos planejar a infraestrutura antes que a demanda se transforme em um gargalo.”

Fernando Botarro Filho atua há mais de 25 anos na engenharia e acumula experiência em projetos de sistemas elétricos, telecomunicações, automação, data centers e infraestrutura crítica, além de empreendimentos nos setores de mineração, siderurgia, saúde e aeroportos.

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