Eu juro que estava quieta, respirando aquele ar pseudo-zen da Pedra da Gávea, quando o celular começou a apitar com ligação de produtor musical e mensagem de assessoria ao mesmo tempo, sinal clássico de que a fofoca é quente. A notícia vinha direto de São Paulo, o Guitar Pool Brasil, um reality totalmente dedicado à guitarra, tinha acabado de coroar o campeão da primeira temporada. No meio do grupo de trilha tirando selfie, eu só conseguia pensar em uma coisa, alguém resolveu lembrar que rock ainda existe no país onde a TV respira sertanejo e sofrência em looping.
O troféu foi parar nas mãos do Heber Nunes, músico de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, que atravessou o mapa, encarou 16 horas de ônibus e chegou ao palco do Blue Note São Paulo como quem sabe exatamente o que quer da vida. A disputa colocou 16 guitarristas do Brasil inteiro frente a frente, em provas que cobravam técnica, criatividade, identidade artística e presença de palco, não só dedilhado rápido para impressionar amigo de bar. Pela descrição de quem estava lá dentro, Heber entregou composição autoral, segurança ao vivo e aquela postura de quem já está pronto para parar de ser apenas “o guitarrista de alguém” e virar o nome da própria história.

Enquanto eu atendia a ligação encostada na pedra, vinha o bastidor completo, o projeto foi idealizado pelo músico e empresário Leandro Ramajo, em parceria com o Blue Note São Paulo, com a ideia de chutar a porta dos concursos musicais engessados. Eles montaram uma banca com gente grande do mercado, músicos, produtores, jornalistas, todo mundo avaliando comunicação, posicionamento, expressão musical e visão de carreira, além da parte técnica. A sensação geral, me contaram, é de que o nível dessa primeira leva de participantes passou do que eles esperavam e ajudou a desenhar um painel bem honesto da nova geração de guitarristas brasileiros.
O pacote de prêmios para o vencedor não veio de enfeite, e é aí que meus ouvidos de colunista ficam mais atentos. Heber levou o Troféu Guitar Pool Brasil, equipamento pesado, guitarra signature, pedaleira, consultorias com especialistas, gravação profissional de single em estúdio e um show solo no próprio Blue Note, um kit completo para transformar visibilidade de reality em carreira palpável. Em entrevista, ele já falou em disco novo, em finalmente mostrar o trabalho autoral que ficava escondido atrás de outros artistas, exatamente o tipo de narrativa que o público de música gosta de acompanhar capítulo por capítulo.
Na camada digital, o movimento é calculado, a temporada inteira está disponível no canal oficial do Guitar Pool Brasil no YouTube, para maratonar, pausar, rever solo e brigar nos comentários sobre quem deveria ter ganhado. Em grupos de músicos, páginas de guitarra e perfis de escola de música, o reality virou assunto, tem gente comemorando o foco no instrumento e pedindo logo segunda temporada, enquanto o fã de rock se agarra à ideia como quem vê um bote salva-vidas no meio do mar de modões. E eu, descendo a trilha de volta para o Cosme Velho, só pensei numa coisa, se a TV abrir espaço para esse tipo de projeto em horário decente, o Brasil vai descobrir que dá para sofrer por amor ouvindo solo bem feito, não só refrão de cachaça.