Eu estava aqui, entre um café apressado e uma passada de olho no celular, com aquele clima de hotel europeu em que todo mundo acha que a vida é um lobby perfumado, quando o Michelin resolveu me entregar um babado chiquérrimo com vocação de manchete. A seleção Rio de Janeiro & São Paulo 2026 foi revelada no Copacabana Palace, no Rio, e o Brasil saiu da cerimônia com peito estufado, taça imaginária na mão e um belo motivo para se achar. E com razão, viu. Desta vez, a coisa veio com peso histórico de verdade.
O fato principal é o seguinte, sem firula. Evvai e Tuju, os dois em São Paulo, conquistaram três estrelas Michelin e se tornaram os primeiros restaurantes do Brasil e da América Latina a alcançar esse topo. Isso muda o patamar da conversa porque coloca a gastronomia brasileira num lugar de prestígio global, desses que fazem chef, investidor, foodie endinheirado e turista gourmet perderem a compostura. No mesmo pacote, D.O.M., Lasai e Oro mantiveram duas estrelas, Madame Olympe, no Rio, ganhou a primeira estrela, elevando para 19 o total de casas nessa categoria, e o guia ainda adicionou seis novos Bib Gourmand e sete novos restaurantes recomendados. Ou seja, não foi uma noite bonita, foi uma noite de recado.





No bastidor digital, o feed gastronômico hoje amanhece com aquela elegância competitiva que eu adoro observar de longe, como quem vê briga em casamento rico sem precisar pagar a conta. Foto de palco vermelho, pose de equipe, chef com sorriso de quem sabe exatamente o tamanho do estrago positivo que fez, textão institucional, parabéns cruzados e muita gente tentando parecer serena diante de um marco que claramente mexe com vaidade, ranking e reserva futura. Nessas horas, sempre aparece quem posta rápido demais, quem agradece com legenda de campeão e quem curte tudo em cinco minutos para não parecer amargurado. O povo da gastronomia é fino, mas o algoritmo conhece a alma humana melhor do que muito analista.
O Michelin não premiou só técnica, premiou projeto de país. Evvai e Tuju virarem três estrelas no mesmo ano dá ao Brasil um selo internacional que vai além do prato bonito e da louça cara. O D.O.M. seguir com duas, Lasai e Oro se manterem fortes, Madame Olympe entrar no mapa, Tuju continuar também com estrela verde, tudo isso desenha um mercado mais maduro, mais ambicioso e menos provinciano. O recado escondido por trás do guardanapo engomado é que São Paulo e Rio já não querem só participar da conversa gastronômica mundial, querem comandar a mesa e escolher o vinho.
E ainda teve prêmio especial para Pedro Coronha, do Koral, como Jovem Chef do ano, Robério de Sousa Queiroz, do Maní, como sommelier, Raphael Zanon, da Casa 201, em serviço, e Anderson Oliveira, do D.O.M., na coquetelaria. Tradução de Kátia, o Brasil sentou no banquete internacional e não pediu licença. Pediu foi repetição, sobremesa e talvez a carta inteira de vinhos, porque depois de uma noite dessas ninguém vai fingir modéstia no grupo do WhatsApp.