Fãs de Harry Styles estão acampados nos arredores do MorumBIS, em São Paulo, antes da sequência de shows do cantor, que começa nesta sexta-feira (17). Barracas, malas, colchões infláveis, carregadores e grupos de revezamento viraram parte da rotina de quem quer garantir lugar perto da grade, mas a espera também tem sido marcada por ataques e julgamentos na rua.
Eu já tinha voltado para a pousada com uma sacola que parecia inocente, mas carregava chocolate suficiente para derrubar qualquer promessa de autocontrole, quando li o relato das meninas acampadas. Parei no meio do quarto, ainda de cachecol na mão, porque tem coisa que parece fofoca de show, mas revela mesmo é como o povo adora fiscalizar alegria alheia. Minha filha, a pessoa enfrenta fila, frio, perrengue, banheiro longe, e ainda precisa ouvir desaforo de quem passa de carro se achando ministro do bom senso.
A frase que resume o absurdo veio de Ana Carolina, de 19 anos, fã de Harry desde a época do One Direction. Ela contou à Folha que pessoas passam gritando que elas são “desempregadas” e “até coisas piores”. Segundo a jovem, a situação gera insegurança, principalmente porque o acampamento é formado majoritariamente por mulheres.

O que muita gente chama de “bagunça”, segundo as fãs, é organização pura. Há grupos montados há meses para dividir barracas, alimentação, turnos e descanso. Nem todo mundo fica dias seguidos na calçada. Muitas participantes se revezam para trabalhar, tomar banho, dormir e voltar para a fila sem prejudicar o combinado coletivo.
Ana também rebateu a ideia de que estar ali significa não ter responsabilidade. Ela explicou que o público trabalhou para comprar ingresso, organizar viagem, alimentação e hospedagem. “Não é uma decisão feita de um dia para o outro”, afirmou. Ou seja, antes de chamar fã de desocupada, convém lembrar que ingresso, transporte e estadia não caem do céu embalados em glitter.
Entre as acampadas está gente de vários estados e até de fora do Brasil. Dariana Depaoli, de 17 anos, veio de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, com a mãe, Viviana Dominguez, de 40. A viagem começou no domingo (12) à noite, por terra. Ela já tinha visto Harry no Rio, mas encontrou uma estrutura mais difícil perto do MorumBIS, com Airbnb a cerca de 20 minutos de caminhada e menos opções próximas de banheiro e comida.

Amanda, de 25 anos, saiu do Paraná de madrugada para chegar a São Paulo. Fã desde os tempos do One Direction, ela viu Harry em Curitiba em 2022 e voltou para viver tudo de novo. Para ela, a imagem negativa dos acampamentos não corresponde ao clima real. Segundo Amanda, o ambiente é tranquilo, com conversa, comida dividida e ajuda mútua.
E eu vou falar uma coisa: existe um prazer estranho em diminuir menina fã. Se fosse fila de homem para final de campeonato, chamariam de paixão, cultura, tradição e “o futebol é lindo”. Quando são jovens, muitas delas mulheres, dormindo em barraca por um artista pop, vira piada pronta, ataque gratuito e grito de “desempregada”. A régua da implicância é tão torta que já devia vir com aviso de defeito de fábrica.
Enquanto Harry circula discretamente por São Paulo, visitando parques, ruas tradicionais e até cinema, do lado de fora do estádio as fãs transformaram a espera em comunidade. Tem perrengue, tem cansaço, tem julgamento, mas também tem amizade, ajuda, comida dividida e a sensação de viver um momento esperado há anos.
O acampamento virou quase uma prévia da turnê “Together Together”: gente junto, segurando a onda junto, ignorando grito atravessado junto. Quem acha exagero pode até não entender. Mas atacar fã por amar demais um show diz muito menos sobre elas e muito mais sobre quem não suporta ver alguém feliz na calçada.