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Kátia Flávia
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“Gritam que somos desempregadas”: Os ataques aos fãs acampados de Harry Styles

Jovens que aguardam shows do cantor no MorumBIS relatam organização em grupos, revezamento na fila, falta de estrutura e comentários ofensivos de quem passa pelo local

Kátia Flávia

17/07/2026 17h30

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Fãs de Harry Styles acampam nos arredores do MorumBIS antes dos shows em São Paulo.

Fãs de Harry Styles estão acampados nos arredores do MorumBIS, em São Paulo, antes da sequência de shows do cantor, que começa nesta sexta-feira (17). Barracas, malas, colchões infláveis, carregadores e grupos de revezamento viraram parte da rotina de quem quer garantir lugar perto da grade, mas a espera também tem sido marcada por ataques e julgamentos na rua.

Eu já tinha voltado para a pousada com uma sacola que parecia inocente, mas carregava chocolate suficiente para derrubar qualquer promessa de autocontrole, quando li o relato das meninas acampadas. Parei no meio do quarto, ainda de cachecol na mão, porque tem coisa que parece fofoca de show, mas revela mesmo é como o povo adora fiscalizar alegria alheia. Minha filha, a pessoa enfrenta fila, frio, perrengue, banheiro longe, e ainda precisa ouvir desaforo de quem passa de carro se achando ministro do bom senso.

A frase que resume o absurdo veio de Ana Carolina, de 19 anos, fã de Harry desde a época do One Direction. Ela contou à Folha que pessoas passam gritando que elas são “desempregadas” e “até coisas piores”. Segundo a jovem, a situação gera insegurança, principalmente porque o acampamento é formado majoritariamente por mulheres.

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Jovens relatam comentários ofensivos de quem passa pela região, incluindo gritos de que seriam “desempregadas”.

O que muita gente chama de “bagunça”, segundo as fãs, é organização pura. Há grupos montados há meses para dividir barracas, alimentação, turnos e descanso. Nem todo mundo fica dias seguidos na calçada. Muitas participantes se revezam para trabalhar, tomar banho, dormir e voltar para a fila sem prejudicar o combinado coletivo.

Ana também rebateu a ideia de que estar ali significa não ter responsabilidade. Ela explicou que o público trabalhou para comprar ingresso, organizar viagem, alimentação e hospedagem. “Não é uma decisão feita de um dia para o outro”, afirmou. Ou seja, antes de chamar fã de desocupada, convém lembrar que ingresso, transporte e estadia não caem do céu embalados em glitter.

Entre as acampadas está gente de vários estados e até de fora do Brasil. Dariana Depaoli, de 17 anos, veio de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, com a mãe, Viviana Dominguez, de 40. A viagem começou no domingo (12) à noite, por terra. Ela já tinha visto Harry no Rio, mas encontrou uma estrutura mais difícil perto do MorumBIS, com Airbnb a cerca de 20 minutos de caminhada e menos opções próximas de banheiro e comida.

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Grupos se organizam em esquema de revezamento para descansar, trabalhar e manter lugar na fila.

Amanda, de 25 anos, saiu do Paraná de madrugada para chegar a São Paulo. Fã desde os tempos do One Direction, ela viu Harry em Curitiba em 2022 e voltou para viver tudo de novo. Para ela, a imagem negativa dos acampamentos não corresponde ao clima real. Segundo Amanda, o ambiente é tranquilo, com conversa, comida dividida e ajuda mútua.

E eu vou falar uma coisa: existe um prazer estranho em diminuir menina fã. Se fosse fila de homem para final de campeonato, chamariam de paixão, cultura, tradição e “o futebol é lindo”. Quando são jovens, muitas delas mulheres, dormindo em barraca por um artista pop, vira piada pronta, ataque gratuito e grito de “desempregada”. A régua da implicância é tão torta que já devia vir com aviso de defeito de fábrica.

Enquanto Harry circula discretamente por São Paulo, visitando parques, ruas tradicionais e até cinema, do lado de fora do estádio as fãs transformaram a espera em comunidade. Tem perrengue, tem cansaço, tem julgamento, mas também tem amizade, ajuda, comida dividida e a sensação de viver um momento esperado há anos.

O acampamento virou quase uma prévia da turnê “Together Together”: gente junto, segurando a onda junto, ignorando grito atravessado junto. Quem acha exagero pode até não entender. Mas atacar fã por amar demais um show diz muito menos sobre elas e muito mais sobre quem não suporta ver alguém feliz na calçada.

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