Meus fofoqueiros , eu precisei largar o celular, ajustar o coque e respirar com alguma dignidade porque o Golden Globes resolveu fazer escala no Brasil com pose de gala internacional e uma lista de homenageados que tem peso, estofo e biografia de sobra. Estamos falando de Fernanda Montenegro, Antonio Pitanga, Valentina Herszage e Adolpho Veloso, todos anunciados para o primeiro Golden Globes Tribute Gala Brazil, marcado para 18 de março, no Copacabana Palace. Sim, meu amor, o tapete aqui vem com cheiro de mar, lustre de hotel icônico e aquela vontade nacional de provar que a nossa indústria cultural sabe muito bem usar smoking sem perder a alma.
Eu adoro cerimônia que chega cheia de pedigree e precisa se explicar no mercado como quem entra numa festa chiquérrima dizendo “prazer, sou global”. E nesse caso a estratégia veio redondinha. A organização vende a noite como uma celebração das contribuições extraordinárias desses nomes para o cinema e a televisão brasileiros, com produção da Urland Ventures LLC em parceria com o Golden Globes. Ainda escalaram Bruna Marquezine e Lázaro Ramos para apresentar a cerimônia, o que já dá à noite um ar de elenco bem escolhido, com glamour, apelo pop e prestígio artístico no mesmo pacote. A Moët & Chandon entra como champagne oficial, porque evento de premiação gosta mesmo é de uma taça para legitimar o close.
Fernanda Montenegro recebe a maior honraria da noite, o Golden Globes Apogeu Award, e aqui eu fico até com meu veneno em modo respeitoso, porque a mulher é uma cordilheira cultural. Indicada ao Globo de Ouro por Central do Brasil, filme que venceu como Melhor Filme em Língua Estrangeira, Fernanda virou uma espécie de patrimônio imaterial com dicção impecável e autoridade de quem atravessou cinema, teatro e televisão sem precisar pedir licença. Quando uma premiação internacional olha para ela, convenhamos, está só confirmando o óbvio com décadas de atraso elegante.

Antonio Pitanga também será homenageado com o Apogeu Award, e eu gosto muito quando uma cerimônia lembra que o Brasil tem história antes do algoritmo descobrir que cultura dá engajamento. Pitanga carrega uma trajetória marcada por mais de 50 filmes, incluindo Barravento e Ganga Zumba, além de um papel central na valorização da cultura negra e na história do cinema novo brasileiro. É daqueles nomes que não precisam de legenda explicativa, mas ganham legenda mesmo assim porque sempre aparece uma geração distraída achando que começou tudo ontem, depois do streaming e de dois posts patrocinados.

Na ala Ascensão Award aparecem Valentina Herszage e Adolpho Veloso, o que dá à noite uma combinação interessante de legado consolidado com talento em curva ascendente. Valentina entra reconhecida pelo momento forte na carreira depois de trabalhos como Kill Me Please e, mais recentemente, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles. O texto da premiação puxa a ponte com Fernanda Torres, vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Dramático 25 anos depois de Fernanda Montenegro ter sido celebrada por um filme do mesmo diretor. Eu, que sou alérgica a coincidência boa demais, admito que aqui a simetria ficou bonita, dessas que assessoria ama e colunista também.

Já Adolpho Veloso recebe o mesmo prêmio de ascensão embalado pela repercussão internacional de seu trabalho como diretor de fotografia em Sonhos de Trem. Ele foi indicado ao 98º Oscar de Melhor Fotografia, tornando-se o primeiro brasileiro lembrado nessa categoria. Isso tem peso real, meus amores. Fotografia costuma render menos gritaria de fã-clube, mas organiza a beleza que todo mundo aplaude sem saber exatamente de onde veio. É o tipo de homenagem que dá um verniz cinéfilo sério à gala e impede que a noite vire apenas um desfile de flash com pronúncia importada.

O que mais me chama atenção, olhando esse movimento com minha taça imaginária e minha alma de cronista levemente surtada, é o recado institucional. O Golden Globes quer fincar bandeira no Brasil com uma cerimônia própria e, para isso, escolheu homenageados que conversam com prestígio, memória, renovação e inserção internacional. Foi esperto. Muito esperto. Parece casting de série cara que passou por seis reuniões de branding, três planilhas e uma crise existencial de executivo em Los Angeles.
Meu bem, eu até comecei lendo esse anúncio com o ceticismo clássico de quem já viu evento pomposo demais tropeçar no próprio salto, mas aqui existe uma engenharia simbólica interessante. Fernanda e Pitanga dão espinha dorsal. Valentina e Adolpho projetam futuro. Marquezine e Lázaro oferecem brilho e circulação. Copacabana Palace entrega cenário. O Rio, claro, entra como esse personagem que nunca faz ponta, sempre exige papel principal.