A Globo adiou o primeiro beijo entre Mau Mau, vivido por João Victor Gonçalves, e Felipe, personagem de Pietro Antonelli, em “Quem Ama Cuida”. A cena, inicialmente prevista para esta quinta-feira (22), agora deve ir ao ar na próxima terça-feira (27), dois dias após o segundo turno das eleições presidenciais.
Eu já estava com as caixas de travesseiros nos braços, dentro da Piriquita, em Sintra, Portugal, quando li a notícia e quase pedi um doce para acalmar a irritação. A cena foi gravada, a direção de dramaturgia assistiu, aprovou e não pediu cortes. Então por que esse beijo precisa esperar a eleição passar?

Um dos motivos para a mudança é que “Quem Ama Cuida” não terá capítulo na sexta-feira (23), quando a Globo exibirá o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro. Com a grade alterada, a direção da novela reorganizou as sequências para os dias seguintes.
Eu entendo que debate muda programação. Isso é objetivo, concreto, inevitável. O que me incomoda é ver uma demonstração de amor entre dois personagens ser tratada como uma grande carta de impacto para o pós-eleição, como se afeto gay ainda precisasse ser calculado com régua, planilha e medo de reação.
A reportagem informa que a direção de dramaturgia viu as cenas antes de autorizar a exibição. Não houve pedido de ajuste, ao menos até agora. Os autores também escreveram outras demonstrações de carinho entre Mau Mau e Felipe, que devem aparecer em público a partir de novembro.
Eu saí da Piriquita segurando os doces e pensando que beijo heterossexual em novela nunca ganha esse tamanho de engenharia. Casal se beija, faz jura, casa, separa, trai, volta e ninguém abre uma discussão estratégica. Mas basta dois homens ocuparem esse mesmo espaço que o assunto vira “momento de impacto”.
O casal, apelidado de Malipe pelo público, tem sido usado pela Globo para impulsionar o engajamento de “Quem Ama Cuida” nas redes sociais, como já ocorreu com Loquinha, de “Três Graças”. A novela registra média parcial de 23 pontos e 40% de participação nacional.

Eu acho ótimo que a emissora aposte no casal, mas não aceito que representação vire só ferramenta de audiência. Mau Mau e Felipe não podem ser chamados para movimentar hashtag e depois colocados em espera porque o calendário político ficou apertado. Afeto não deveria entrar na grade como se fosse conteúdo de risco.