Eu estava na academia, suada num nível incompatível com qualquer dignidade burguesa, depois de fazer levantamento de peso, quando abri a coluna de Daniel Castro no Notícias da TV. Parei. Porque quando Daniel escreve sobre bastidor da televisão brasileira, eu leio. Para mim, ele é o maior nome do jornalismo de televisão do país. Foi um dos jornalistas que ajudaram a tratar TV como aquilo que ela também é: uma indústria bilionária, com estratégia, receita, poder e disputa de comando.
E a coluna desta sexta-feira (4) veio com sangue cenográfico no carpete. Segundo Daniel Castro, no Notícias da TV, a Globo deve anunciar mudanças importantes em sua cúpula, numa reestruturação que internamente ganhou o apelido de “Casamento Vermelho”, referência ao episódio de Game of Thrones. Entre as saídas apontadas estão Manuel Belmar e Manuel Falcão.

Belmar é uma peça gigantesca nessa engrenagem. Oficialmente diretor de Produtos Digitais, Finanças, Jurídico e Infraestrutura, ele se reporta diretamente ao presidente Paulo Marinho. Há sete anos controla as finanças do grupo e, desde 2024, também está à frente do Globoplay e dos canais pagos. Traduzindo para quem não passa a manhã lendo organograma: mexer nessa cadeira é mexer perto do cofre, do streaming e do centro de comando.
Daniel Castro aponta dois pontos particularmente sensíveis na trajetória recente do executivo. Um deles é a estratégia da Globo para a Copa do Mundo, quando a empresa abriu mão da exclusividade e reduziu o número de partidas transmitidas para diminuir custos com direitos. A decisão abriu espaço para o crescimento da CazéTV e do YouTube na competição. É aquele tipo de economia que depois precisa ser examinada com lupa para saber quanto realmente custou.
O outro foco é o Globoplay. Segundo a apuração do Notícias da TV, Belmar não vinha sendo bem avaliado na condução da plataforma. Ele havia anunciado que o streaming alcançara o equilíbrio entre despesas e receitas, mas a coluna aponta estagnação do faturamento nos balanços recentes da Globo e levanta a possibilidade de a operação ter voltado ao vermelho. Também entra nessa conta o acordo com a Claro, que passou a oferecer Globoplay a seus assinantes enquanto a Globo recebe participação ligada às vendas de serviços da operadora.
Manuel Falcão, diretor de Marca e Comunicação, aparece no mesmo tabuleiro. De acordo com Daniel Castro, estudos internos indicariam problemas na “saúde” da marca Globo. E aqui a fofoca empresarial fica especialmente sofisticada: Falcão tem relação de amizade com Paulo Marinho, e sua saída seria um sinal de que o presidente permanece no comando, porém enfraquecido nessa reorganização.

No centro dessa movimentação está Carlos Henrique Schroder, ex diretor geral da Globo e atualmente integrante do Conselho de Administração. A coluna informa que Schroder vem produzindo relatórios críticos sobre integrantes da equipe de Paulo Marinho. A decisão sobre as mudanças estaria no conselho comandado pelos filhos de Roberto Marinho, Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto. Outros nomes também aparecem na zona de turbulência: Pedro Garcia, responsável pela negociação de direitos esportivos, e Paulo Tonet Camargo, vice presidente de Relações Institucionais.
Eu terminei de ler ainda suada e pensei: academia nenhuma entrega um treino de resistência igual ao organograma da Globo. Daniel Castro chamou de “Casamento Vermelho” e a comparação faz sentido pelo tamanho da movimentação descrita. Agora é acompanhar quem continua sentado à mesa quando essa reorganização terminar. Crédito integral da apuração: Daniel Castro, do Notícias da TV.