Eu estava no Cosme Velho, com meu robe de seda, meu café caro e uma manicure tentando salvar uma unha que viu mais tragédia que final de novela das oito, quando o celular começou a apitar com Gabriela Duarte para todo lado. Grupo de WhatsApp fervendo, trend subindo, portal correndo, e esta colunista aqui, que nasceu com faro de escândalo e boleto de milionária, largou o pão de queijo no pratinho de Limoges e foi entender o babado.
Gabriela voltou a falar da decisão de parar de trabalhar colada em Regina Duarte, sua mãe, lenda da televisão e dona de uma biografia que entra na sala antes dela. A atriz contou que percebeu tarde demais que as duas tinham virado uma espécie de dupla pública, misturada demais aos olhos do Brasil. A partir daí, decidiu dizer “chega”, mesmo sabendo que o público, essa sogra coletiva de famosos, não ia aceitar calado.
E não aceitou mesmo. Gabriela disse que as pessoas odiaram a decisão, e que Regina também não gostou na época. A veterana chegou a alertar a filha sobre um possível arrependimento, mas Gabriela preferiu pagar para ver, porque pior do que errar sozinha é acertar eternamente como apêndice da mãe, minha santa.
O tempero dessa história fica mais ardido porque a sombra de Regina deixou de ser apenas artística e virou política. Gabriela já contou que recebeu cobranças e ameaças depois que a mãe entrou no governo Bolsonaro, como se filha tivesse que responder por cada escolha, fala, cargo, tropeço e postagem da matriarca. A atriz vem tentando explicar há anos que amor de família não exige pensamento em bloco, embora a internet adore transformar árvore genealógica em inquérito policial.
O mais curioso é que, apesar das diferenças, não existe novela mexicana de rompimento definitivo aí. Regina já apareceu homenageando Gabriela, chamando a filha de orgulho, amiga, atriz e cidadã, enquanto Gabriela também afirmou que a admiração e o amor são recíprocos. Ou seja, tem afeto, tem incômodo, tem história, tem cicatriz e tem aquela complexidade que família brasileira conhece bem, só que sem câmera, sem manchete e sem a tia do X pedindo posicionamento.
No fim, Gabriela Duarte virou assunto porque tocou num ponto que muita gente entende, a luta para ser filha sem virar cópia autenticada em cartório.
Ela cresceu diante do país, brilhou, apanhou, foi comparada, cobrada e ainda teve que separar carreira, afeto e CPF em praça pública. E Kátia Flávia sentencia do alto do Cosme Velho, sombra de mãe famosa pode até refrescar no começo, mas chega uma hora em que a filha precisa abrir o próprio guarda-sol.