Eu estava na cozinha, discutindo com minhas amigas se o arroz ia ser branco ou biro biro, a governanta passando com a travessa de salada, quando alguém largou no grupo o vídeo da reportagem do caso no litoral de São Paulo. Dei play achando que era golpe de Pix comum e quase derrubei o sal ao ouvir que o funcionário de um IML teria usado o celular de um homem morto para transferir sete mil reais para a própria conta. O corpo tinha acabado de chegar ao instituto, a família em choque do lado de fora, e lá dentro alguém decidiu que o aplicativo bancário do falecido era oportunidade de renda extra.
O que se apurou é que a família desse homem, desconfiada, foi olhar o extrato bancário e encontrou a transferência esquisita, feita no mesmo dia da morte, poucas horas depois de o corpo entrar no IML. Não era débito automático, não era cobrança atrasada, era Pix direto para o servidor que estava ali, teoricamente, para zelar pelo procedimento técnico e pelo respeito mínimo aquele corpo. Com a movimentação no radar, veio a investigação, o atendente acabou preso preventivamente e responde por peculato, aquele crime que acontece quando o servidor usa o cargo para se apropriar ou desviar dinheiro ou bens que deveriam estar sob a guarda do Estado.
Nos bastidores, o que se comenta é que o caso explodiu na Baixada Santista porque atinge um lugar sensível, ninguém espera glamour em necrotério, mas espera respeito, e a ideia de alguém mexer no celular de quem acabou de morrer para mandar Pix para si mistura violação com crueldade. A Secretaria de Segurança Pública informou que a Polícia Civil toca o inquérito, com acompanhamento da Corregedoria, justamente para descobrir se o servidor agiu sozinho e como conseguiu acesso à conta, já que, em muitos bancos, isso exige senha, biometria ou reconhecimento facial. Bastaram as primeiras informações saírem para o negócio virar assunto de grupo de família e rodinha de bar.
Na camada digital, o caso virou indignação instantânea, gente dizendo que “nem morto tem paz”, comentário cobrando fiscalização mais rígida em órgãos como IML, perfil de notícia explicando o que é peculato e como denunciar movimentação bancária suspeita em nome de parente falecido. O tom é de revolta, porque a sensação é que o golpe atravessou uma fronteira moral, não é ladrão de esquina, é servidor usando um ambiente que deveria ser técnico para avançar em patrimônio de família enlutada. E enquanto o processo corre, eu termino meu almoço olhando para o celular e pensando que, se até no IML estão usando telefone de morto para golpe, vigiar extrato depois do enterro vira parte triste do roteiro de luto nesse país.