Estava com o cabelo no papel alumínio, esperando a cor pegar num salão aqui em Bari, quando Lucas Silveira me ligou direto, bem animado, para contar que o disco finalmente estava saindo para o mundo. Não precisei nem perguntar de qual disco: quem acompanha a banda sabe que “Carta de Adeus” vinha sendo gestado com aquela seriedade de quem não faz álbum para cumprir agenda.
“Carta de Adeus” é o 11º disco da Fresno, com dez faixas inéditas e uma canção bônus exclusiva para o formato físico, tudo produzido pelo próprio Lucas Silveira, que comanda a produção da banda desde que saíram da Universal em 2012. O trabalho foi apresentado ao vivo e na íntegra no Espaço Unimed, em São Paulo, no dia 18 de abril, antes de qualquer disponibilização digital, que acontece nesta sexta-feira, dia 24. O público ouviu o álbum completo antes do Spotify, e isso, no cenário de hoje, é quase um ato político.


O conceito do disco parte de uma decisão quase radical: deixar os instrumentos soarem como instrumentos. Guitarras que soam como guitarras, baterias que respiram, vozes que ocupam o espaço sem camadas artificiais. A referência é a geração que criou o emo brasileiro, com equipamentos analógicos dos anos 80 e uma sonoridade que remete ao que Lucas Silveira ouviu ainda adolescente em Porto Alegre, entre Joy Division, The Cure, Titãs e Engenheiros do Hawaii. A faixa “Tentar De Novo e De Novo” sintetiza esse universo, e a faixa-título “Carta de Adeus (BYE BYE TCHAU)” entrega a catarse pela porta dos fundos, sem a explosão óbvia que todo mundo esperava.
A novidade que está fazendo mais barulho nos grupos de fãs é a inclusão, pela primeira vez na carreira, de um cover em disco de estúdio: “Pessoa”, eternizada na voz de Marina Lima, com composição de Dalto e Cláudio Rabello. A escolha saiu de uma pesquisa musical de Lucas sobre os anos 80 que o fez mergulhar fundo na obra de Dalto. A faixa entra no álbum como peça de identidade e pertencimento, e já está circulando em prints nos stories com gente escrevendo “eu não estava pronta.”
Com distribuição digital pela FUGA e uma equipe criativa que inclui Camila Cornelsen na direção criativa e fotografia, o disco chega com unidade visual cuidada do início ao fim. A coluna termina de enxaguar a cor aqui em Bari e já vai colocar “Carta de Adeus” no fone: despedida que abre porta, a Fresno conhece bem esse truque.