Flora Gil publicou uma homenagem bonita às mulheres que, nas palavras dela, não soltaram a mão de Preta em nenhum momento. Chamou de leoas. Marcou Soraya Rocha, Jude Paulla e Marina Morena, agradeceu o amor, a lealdade, a festa, tudo aquilo que a Preta faria questão de deixar como recado. Homenagem de encher os olhos. Só que faltou um nome. E não era um nome qualquer. Faltou a Malu Barbosa.
Vou situar quem por acaso não acompanhou de perto. Malu não era amiga de foto de camarote. Malu era sócia da Preta na Music2Mynd, abriu a própria casa nos Jardins pra receber a cantora durante o tratamento, se mudou temporariamente pros Estados Unidos pra ficar ao lado dela na última tentativa e só voltou ao Brasil porque estava grávida e precisava ter a filha aqui. Dividiu hospital, cirurgia de vinte e uma horas, fuso horário, madrugada e esperança. Se existe uma definição de leoa nessa história, o dicionário devia abrir bem na página dela.

Por isso a ausência faz barulho. Repare que a própria Marina Morena, citada por Flora, é uma das mulheres que a Malu menciona nos relatos sobre os dias mais duros em Washington. Ou seja, não dá pra explicar a falta como um esquecimento de quem estava longe do círculo. Circulavam pelo mesmo quarto de hospital. Postar no aniversário de um ano da partida, escolher a trilha certa, marcar cada arroba com carinho e justo pular a amiga mais colada exige, no mínimo, uma distração muito bem posicionada.
E aqui a coisa fica interessante, porque essa história não nasceu do nada. Faz poucos dias vieram à tona os bastidores das homenagens audiovisuais à Preta. Saíram duas produções sob o mesmo projeto, Quanto Mais Preta, Melhor: o documentário Preta, Eu Não Ando Só, na Globo, e a série Meu Nome é Preta, no Globoplay. E, pelo que se apurou nos bastidores, elas nasceram separadas por um racha entre a família e os amigos da cantora, que não se alinharam e seguiram caminhos diferentes pra contar a mesma vida. Flora ficou à frente do lado da família. Do outro lado, os amigos. Adivinha de que lado mora a Malu nesse mapa. Uma homenagem que esquece justo ela, no meio de um racha família contra amigos, para de parecer distração e começa a parecer legenda com endereço.

Nada disso prova intenção, e eu faço questão de dizer. Pode ter sido pressa, pode ter sido recorte de foto, pode ter sido só o dedo cansado de tanto marcar arroba. Mas homenagem é memória, e memória é afeto exposto na vitrine. Quando alguém escolhe publicamente quem lembrar, escolhe também, no mesmo gesto, quem deixar na sombra. E tem coisa que, uma vez publicada, o público lê nas entrelinhas antes de a assessoria conseguir corrigir.
No fim, fica o retrato. De um lado, a versão oficial da história sendo montada em quatro episódios. Do outro, a amiga que largou a própria vida e quase teve a filha num hospital americano pra não largar a mão da Preta. E entre as duas, uma legenda de Instagram que disse além do que pretendia. Vou terminar meu café, que o alumínio já esfriou na cabeça, mas confesso que essa eu vou acompanhar de perto. Porque afeto de verdade não precisa de arroba pra existir. Mas custava lembrar.