Saí da manicure com a unha ainda meio mole, cortei a academia sem dó, entrei no carro e mandei o motorista pegar a ponte, porque tenho prova de vestido marcada em Niterói e embarque para Ibiza hoje à noite. Foi no meio dessa correria toda, com a bolsa aberta no banco e a lista mental de mala rodando na cabeça, que li a matéria e desliguei o rádio. Tem notícia que pede silêncio dentro do carro.
O fato é este. A filha de Elize Matsunaga, hoje adolescente, foi criada pelos avós paternos desde a prisão da mãe e não tem contato com ela desde então. A Justiça mantém restrições que impedem a aproximação. Segundo o relato de Ulisses Campbell, o avô paterno defende que qualquer reencontro só aconteça quando a neta completar 18 anos e puder decidir sozinha, com a frase resumindo a posição da família: se ela quiser ver a mãe, ela vai. Ou seja, não existe proibição eterna sendo imposta, existe uma espera até que a jovem tenha autonomia legal e emocional para escolher.

O assunto voltou a circular por causa do cinema. No dia 22 de julho, a Netflix lançou “Elize: Sombras de Uma Mulher”, ficção inspirada no caso real, sem ser documentário nem reconstituição literal dos acontecimentos. É importante que isso fique claro, porque nas redes a distinção evapora em minutos e todo mundo passa a discutir a vida de pessoas reais usando cenas escritas por roteirista. Elize já declarou publicamente em outras ocasiões que gostaria de retomar o contato com a filha. Isso não altera nada do quadro atual: não há encontro marcado, não há decisão tomada pela jovem, não há reaproximação anunciada.
E a leitura que me interessa é a do adulto que soube ficar quieto. A família paterna carrega desde 2012 uma perda brutal e podia ter transformado essa dor em pronunciamento constante, entrevista, campanha, qualquer uma das dezenas de formas que existem hoje de monetizar tragédia. Escolheu o contrário. Criou a menina longe dos holofotes que perseguem esse caso há mais de uma década e, quando finalmente falou, foi para dizer que a palavra final não é dele. Num país onde parente de vítima vira personagem fixo de programa de auditório, isso merece registro.

Chego em Niterói para experimentar vestido pensando numa coisa. O Brasil consumiu esse caso como consumiu poucos, virou livro, virou série, virou filme, virou meme, virou piada de mau gosto em legenda de rede social. E a única pessoa que jamais escolheu estar nessa história continua sendo justamente a que todo mundo insiste em incluir no roteiro. Daqui a pouco ela faz 18 anos e vai poder decidir. Que a gente tenha a decência de não estar filmando quando isso acontecer.