Um menino corintiano de 8 anos precisou sair escoltado da Neo Química Arena após ganhar a camisa de Neymar no fim da vitória do Santos por 1 a 0 sobre o Corinthians. O garoto, fã declarado do camisa 10 santista, foi hostilizado por parte dos torcedores presentes no estádio e deixou o local acompanhado da família, da Polícia Militar e da segurança.
Acordei no Cosme Velho, com a segunda-feira nublada e 22 graus, olhando para o dia que tinha planejado: levar minha sandália dourada para consertar na Rua das Laranjeiras, passar na floricultura para escolher uns lírios e encontrar as amigas no almoço em Santa Teresa. Aí vi essa história e fiquei sentada na cama, sem nem alcançar o chinelo. Porque tem notícia que bagunça a agenda da gente por dentro.

O menino estava no estádio com um cartaz pedindo a camisa de Neymar. Depois do apito final, o jogador cumpriu a promessa, entregou o uniforme e viu o garoto se emocionar. Era para ser uma cena de futebol como ele deveria ser: uma criança vendo o ídolo de perto e levando para casa uma lembrança que contaria para o resto da vida.
Mas parte da arquibancada resolveu transformar esse momento em constrangimento. O garoto foi alvo de xingamentos e hostilidades por receber a camisa de um jogador do time rival. Resultado: uma criança de oito anos, ao lado da família, precisou de escolta para conseguir sair de um estádio de futebol.
Minha gente, camisa de jogador não é crime. Admirar Neymar não apaga o Corinthians do coração de ninguém. A criança não trocou de clube, não provocou torcida, não entrou em campo, não roubou resultado. Só ganhou um presente do atleta que admira. E adulto que se sente ameaçado por isso precisa procurar muita coisa na vida, menos uma arquibancada para descontar frustração.
Neymar explicou que sabia que o garoto era corintiano e que justamente por isso quis entregar a camisa. “É um menino que é corintiano, uma criança, independente do time que torce, rival ou não, quando gosta de um atleta, pode me admirar em vários momentos, faz parte”, declarou.
O Santos venceu o clássico com gol de Oliva, no rebote de uma cobrança de falta de Neymar, pela 25ª rodada do Brasileirão. O resultado já era ruim para quem torcia pelo Corinthians. Mas perder jogo não dá autorização para alguém aterrorizar um menino que estava feliz com uma camisa.
Eu levantei da cama, fui até a janela e pensei que a rivalidade é uma das delícias do futebol quando vira grito, provocação, bandeira, camisa e discussão de mesa de bar. Quando um fã mirim precisa ir embora protegido pela polícia, acabou a graça. Não é paixão. É fracasso de gente grande.

Vale lembrar: foram torcedores que participaram da hostilidade, não a torcida inteira do Corinthians. Mas essa distinção não diminui o horror da cena. O menino foi escoltado porque adultos não conseguiram suportar a imagem de uma criança feliz, e isso mancha qualquer clube.
Hoje eu ainda vou resolver a sandália, escolher os lírios e encontrar minhas amigas. Mas com uma certeza: o futebol precisa voltar a caber na infância. Porque um menino deveria sair de um estádio abraçado à camisa do ídolo, não cercado por segurança para não ser atacado por uma multidão.