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Kátia Flávia
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Fabricio Couto resgata aparições de Nossa Senhora da Obediência no documentário “Serra Sagrada” após quase quatro décadas

Obra reúne testemunhos, documentos e imagens sobre os episódios registrados entre 1987 e 1988, em Congonhal, Minas Gerais

Kátia Flávia

05/11/2026 10h35

Fabricio Couto ao lado do historiador Josmar Silva, de Alfredo, que relatou ter presenciado as aparições de Nossa Senhora da Obediência, e de Fifico, ex-prefeito de Congonhal na época (Divulgação Pessoal).

Fabricio Couto ao lado do historiador Josmar Silva, de Alfredo, que relatou ter presenciado as aparições de Nossa Senhora da Obediência, e de Fifico, ex-prefeito de Congonhal na época (Divulgação Pessoal).

A memória de um povo também é construída pelas histórias que permanecem vivas ao longo do tempo. Em Congonhal, no Sul de Minas Gerais, os relatos de aparições de Nossa Senhora Rainha da Obediência, entre os anos de 1987 e 1988, marcaram a vida de moradores e mobilizaram milhares de fiéis. Quase quatro décadas depois, essa história ganha um novo registro com o documentário Serra Sagrada, idealizado pelo produtor audiovisual Fabricio Couto.

O projeto nasceu de uma curiosidade antiga. Nascido em 1989, pouco depois dos acontecimentos, Fabricio cresceu ouvindo sobre a história de São Domingos e desejava conhecer melhor os episódios e seus bastidores. “Há três ou quatro anos, comecei a alimentar o sonho de contar uma história que sempre despertou muito a minha curiosidade”, conta.

A ideia foi ganhando forma até se transformar em uma produção construída ao lado do historiador local Josmar Silva, responsável pela pesquisa histórica e coautor do roteiro. Foram sete meses de trabalho e 27 pessoas entrevistadas, entre moradores, familiares, religiosos e personagens que acompanharam os acontecimentos.

Para Fabricio, o documentário também representa uma etapa importante de sua trajetória. Há três anos, ele percorreu 230 quilômetros pelo Caminho da Fé e concluiu a jornada justamente no dia de seu aniversário. A experiência marcou uma virada pessoal, fortalecida também pela devoção a Nossa Senhora de Fátima, tradição presente na família materna.

“Enxerguei aquele momento como o encerramento de um ciclo e o início de uma nova etapa, uma verdadeira virada de chave na minha vida”, relembra. A vontade de contar histórias também o aproximou do audiovisual. Depois de estudar Administração na FMU, em São Paulo, passou a se dedicar à produção de documentários e atualmente estuda Produção Publicitária na Belas Artes.

Serra Sagrada é seu terceiro documentário, mas o primeiro realizado de maneira independente, sem vínculo com instituições públicas. Para viabilizar o trabalho, Fabricio conta que reuniu empresários que acreditaram na proposta e apoiaram a produção.

“Esse trabalho tem um significado ainda mais especial por ser meu primeiro projeto independente”, afirma.

Um dos principais resultados da pesquisa foi o acesso a documentos históricos preservados por quase quatro décadas. A partir de uma reportagem da revista Manchete, a equipe chegou a Adilson, ex-padre que acompanhou os acontecimentos ao lado do padre Afonso. Com ele, encontrou registros que ajudaram a reconstruir a repercussão daquele período, incluindo uma fita com a gravação original de um programa de Eli Corrêa, da Rádio Record, que chegou a enviar uma repórter à região entre os anos das aparições.

Segundo Fabricio, na época, os relatos ultrapassaram os limites de Congonhal e ganharam repercussão nacional. Segundo estimativas mencionadas durante a pesquisa, entre 20 mil e 30 mil fiéis teriam subido a serra na ocasião da última aparição relatada. O material recuperado também será destinado à Casa das Promessas, onde deverá integrar uma sala de memória.

Entre os aspectos que mais chamaram a atenção de Fabricio estão os bastidores da participação da Igreja Católica. Os depoimentos reunidos incluem relatos sobre os procedimentos realizados na época e as avaliações às quais Alfredo, agricultor que afirmou ter presenciado as aparições, teria se submetido. A entrevistada Luciete Massafera, que participou da investigação designada pelo arcebispo, também contribuiu com informações sobre esse processo.

Em Serra Sagrada, a intenção não é buscar respostas definitivas sobre as aparições, mas dar espaço às lembranças e experiências de quem viveu aquele período.

“Nosso propósito, meu e do historiador Josmar Silva, que também assina o roteiro, é contextualizar os acontecimentos de 1987 na Serra de São Domingos, reunindo fatos, documentos e relatos de quem viveu aquela época”, explica Fabricio.

Ao longo de quase quatro décadas, a devoção a Nossa Senhora da Obediência continuou reunindo fiéis e mantendo viva a história na comunidade. Para Fabricio, essa permanência revela a força da fé como elo entre as pessoas.

“E não podemos reduzir essa história a nada, porque há 39 anos existe ali um ponto de fé que continua atraindo pessoas. E talvez esse seja o nosso maior milagre: unir as pessoas na fé”, afirma.

O desejo de preservar essas lembranças também está ligado ao futuro da comunidade. Ao lado de Josmar, Fabricio vem trabalhando há três anos no registro da história local, movido pela consciência de que muitas pessoas que viveram aqueles acontecimentos talvez não estejam aqui daqui a alguns anos para compartilhar suas lembranças com as novas gerações.

“Quero dedicar meu trabalho a manter essas memórias vivas, para que as futuras gerações conheçam suas origens, suas lutas e sua identidade. Porque acredito que não existe futuro sólido sem memória”, afirma.

A exibição de Serra Sagrada será realizada no próximo sábado, 7 de novembro, às 18h, na Capela de Nossa Senhora da Obediência, no bairro São Domingos, em Congonhal. A sessão será gratuita e aberta ao público, com a presença esperada dos personagens dessa história e apoiadores do projeto. Após a exibição, será realizado um jantar beneficente em prol da construção da Casa das Promessas.

Mais do que apresentar um filme, Fabricio espera proporcionar um reencontro entre pessoas e lembranças que fazem parte da identidade local.

“Queremos que as pessoas se emocionem, se reconheçam nessa história e sintam orgulho de fazer parte dela”, conclui.

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