Feriado no Rio de Janeiro e eu tomei uma decisão administrativa importantíssima: não vou malhar. Meu corpo entrou em recuperação judicial. Estou em casa, no Cosme Velho, cansadíssima, jogada no sofá e fazendo aquilo que brasileiro faz muito bem quando não precisa bater ponto: vendo televisão e julgando o trabalho alheio.
Só que, no caso do Rock in Rio, descobri que não estou sozinha. Tem gente do audiovisual olhando para as transmissões e perguntando por que a câmera troca tanto que a gente quase precisa tomar Dramin para acompanhar um solo de guitarra.
Quem resolveu falar abertamente foi Oscar Marinho, profissional que trabalhou 29 anos e cinco meses na Globo, passando pela edição de programas como Fantástico, Jornal Nacional e atrações esportivas. Fora da emissora desde dezembro, ele publicou uma crítica à maneira como os shows do Rock in Rio 2026 vêm sendo cortados.
E não foi aquela reclamação genérica de quem prefere “a televisão de antigamente”. Marinho foi direto ao ponto: para ele, há momentos em que as imagens são excessivamente picotadas, com mudanças de câmera que não obedecem necessariamente à música, ao arranjo ou ao que está acontecendo no palco.
A frase que resumiu a bronca é maravilhosa porque cabe numa reunião de televisão e numa indireta de família: “câmeras demais e direção de menos”.
O argumento do ex-Globo é que transmitir um show não significa simplesmente colocar uma quantidade enorme de câmeras à disposição do diretor e sair apertando botão. É preciso conhecer a música, antecipar entrada de instrumento, solo, virada, mudança de dinâmica e entender quando justamente não cortar. Marinho chegou a citar o diretor Jodele Larcher como referência de uma escola que tratava cada música quase como um roteiro.
E aí eu, largada no sofá, comecei a prestar atenção. E entendi perfeitamente a discussão. Às vezes o guitarrista começa um solo, você pensa “agora vai”, e a transmissão já foi para o baterista, para a plateia, para um plano aberto, para alguém chorando, voltou para o palco e, quando encontra o guitarrista novamente, o solo praticamente pediu Uber e foi embora.
Nos comentários da publicação de Marinho surgiu o contraponto. O bacharel em Cinema e Audiovisual Matthaeus Braga argumentou que os cortes rápidos fazem parte de uma linguagem audiovisual contemporânea, em um momento em que o espectador divide atenção com celular e outras telas. Marinho concordou parcialmente: velocidade, para ele, não é necessariamente o problema. O problema é velocidade sem narrativa.
E aí está a parte mais interessante dessa fofoca técnica. Não é uma discussão entre televisão velha e televisão nova. É uma discussão sobre direção. Você pode cortar rapidamente e ainda respeitar ritmo, intenção e música. O que não pode, segundo a crítica, é transformar a mesa de corte numa metralhadora só porque existem vinte câmeras disponíveis.
Tecnologia deu à televisão imagens espetaculares, câmeras em lugares que antes seriam impossíveis e uma quantidade monumental de material ao vivo. Mas quantidade não resolve linguagem. Às vezes, o plano mais bonito é justamente aquele que alguém teve coragem de não interromper.
Agora me deem licença porque eu vou continuar assistindo. Academia hoje não existe, meu tênis nem sabe que é feriado e, depois dessa, toda vez que a Globo trocar de câmera no meio de um solo eu vou contar os cortes. Feriado também serve para isso: descansar o corpo e arrumar uma nova obsessão completamente desnecessária.