Nívea Maria, de 79 anos, falou sobre amor, sexo, perdas e aposentadoria em entrevista recente. A atriz afirmou que vive uma “fase assexuada”, mas disse que não descarta conhecer alguém especial, caso a vida coloque uma nova história em seu caminho.
Eu encaixei as anilhas no leg press e achei a fala de Nívea de uma elegância rara. A mulher não está anunciando despedida do afeto nem dando satisfação a ninguém: está dizendo que se basta, que gosta da própria companhia e que relacionamento não precisa obedecer ao manual de ansiedade alheia.

“Minha companhia agora é minha família. Claro que pode acontecer. De repente posso conhecer alguém, um amigo, e começar a ver estrelinha no céu. Mas não tenho essa pretensão. Tive três casamentos. Já casei muito, já namorei muito, agora deixa eu ficar quietinha”, declarou.
A atriz fez uma distinção direta entre amor e sexo. “Para mim, relação não tem nada a ver com sexo, é gostar de uma pessoa. Sexo, como diria Rita Lee, é animal. Sempre pensei assim. A relação de amor, de respeito, de sentimento, é outra coisa. Pode ter sexo, mas pode não ter também. Estou numa fase assexuada. Eu me basto.”
Eu apoiei os pés na plataforma e fui pensando como ainda existe uma expectativa esquisita de que mulher precisa estar sempre disponível para romance, desejo ou explicação. Nívea, com 62 anos de carreira, respondeu sem drama: ela não está esperando alguém para completar o que já está inteiro.
Na conversa, a atriz também relembrou uma perda gestacional durante as gravações da novela Maria, Maria, em 1978. Nívea contou que descobriu uma gravidez tubária após passar mal, precisou passar por cirurgia e voltou ao trabalho carregando uma experiência que mudaria sua relação com a personagem.
Ela falou ainda sobre a depressão que enfrentou durante Caminho das Índias, em 2009. A filha percebeu que algo não ia bem, e Nívea disse que hoje enxerga reflexos daquele período em sua expressão na novela. “No meio da novela, eu já estava bem mais solta, rindo mais e mais ágil”, recordou.

Em cartaz com a peça Querida Mamãe, no Teatro Renaissance, em São Paulo, a atriz admitiu pensar em aposentadoria. O motivo não é falta de amor pela profissão, mas a precariedade de amparo aos artistas. “A aposentadoria é uma vergonha. Para nós, artistas, não tem leis, não tem regras, não tem nada”, lamentou.
Eu terminei a série, aliviei o peso e fiquei com a frase dela na cabeça: “Eu me basto”. Em um mundo que vive tentando vender falta, Nívea Maria lembrou que autonomia também é saber ficar quietinha, trabalhar quando quer e só abrir espaço para o amor quando ele realmente fizer sentido.