Recebi essa notícia por uma ligação de uma amiga médica do Einstein enquanto eu ainda tomava café em casa, no Cosme Velho, e resolvi não deixar passar batido, porque é o tipo de informação que interessa de verdade. Uma das apresentações mais importantes do congresso europeu de cardiologia deste ano, realizado em Munique entre os dias 28 e 31 de agosto, trouxe resultados de um estudo brasileiro sobre hipertensão que merecem atenção fora do mundo médico.
O nome é OPTION TREAT, conduzido pela farmacêutica Libbs em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein, em 19 centros espalhados pelo país. A pesquisa testou uma pílula única que combina três substâncias, candesartana, clortalidona e anlodipino, para tratar hipertensão que não responde bem aos remédios convencionais. Os resultados principais já tinham sido publicados em 2025 na revista científica JACC Advances, mas em Munique vieram três novas análises que aprofundam o que já se sabia, olhando para grupos específicos de pacientes.

A primeira comparou homens e mulheres. Nas duas mil e tantas pessoas acompanhadas por doze semanas, o remédio funcionou nos dois grupos, mas com força diferente. As mulheres tiveram queda média de 23,9 mmHg na pressão sistólica, contra 18,7 mmHg entre os homens, uma diferença de quase 30%. A cardiologista Patrícia Guimarães, do Einstein, comentou que fatores biológicos e de estilo de vida podem explicar essa resposta mais intensa, e que entender isso ajuda a personalizar o tratamento no futuro.
A segunda análise, com 673 participantes, investigou se a cor da pele influenciava o efeito do remédio. A resposta foi não. Brancos, negros e pardos tiveram reduções parecidas, em torno de 5,48 mmHg a mais que o tratamento comparador, o que reforça que a combinação funciona bem numa população tão misturada quanto a brasileira. Já a terceira, com 666 pacientes, olhou para o nível de risco cardiovascular. Quem tinha risco baixo ou intermediário respondeu um pouco melhor que quem tinha risco alto, mas o remédio se mostrou superior ao tratamento tradicional em todos os grupos, sem exceção.
O cardiologista Vagner Madrini Junior, também do Einstein, resumiu bem o valor desses dados ao dizer que eles ajudam a entender como diferentes perfis de pacientes reagem ao tratamento, sem tirar a força do resultado principal. E a gerente de Ciências Médicas da Libbs, Vivienne Carduz Castilho, falou em cuidado cada vez mais personalizado para quem convive com pressão alta. Fica o registro de que ciência séria, quando bem conduzida, é isso: entender melhor quem está do outro lado do remédio.