Eu estava em casa no Cosme Velho, com o noticiário internacional ligado de fundo, quando a tela do celular acendeu com uma amiga de Lisboa mandando a decisão espanhola com três pontos de exclamação. Parei tudo, fui ler o documento, e fiquei ali um bom tempo sentada com o café esfriando na mão porque o que está escrito naquele texto judicial é uma das viradas mais cinematográficas que o jornalismo de entretenimento produziu nos últimos anos.
A Audiência Nacional da Espanha concluiu que Shakira não era residente fiscal no país em 2011 e que, portanto, não tinha nenhuma obrigação de pagar imposto de renda ou imposto sobre o patrimônio naquele ano. O processo que a obrigou a desembolsar quase 55 milhões de euros em liquidações e sanções foi inteiramente anulado, e o valor deve ser devolvido com juros, chegando a mais de 60 milhões de euros.  Em reais de hoje, a conta passa de R$ 352 milhões. O fisco espanhol errou, insistiu, perdeu, e agora paga.
A equipe jurídica de Shakira explicou ao tribunal que em 2011 ela estava em turnê mundial com 120 shows em 37 países, sem residência, filhos ou sede empresarial na Espanha. Ainda assim, a Agência Tributária exigiu impostos sobre todos os lucros da digressão, sem considerar as despesas.  O que o fisco fez, resumindo, foi cobrar o mundo inteiro de uma mulher que estava literalmente percorrendo o mundo. O próprio tribunal concluiu que a Administração nunca conseguiu provar que Shakira permaneceu em território espanhol durante os 183 dias necessários para ser considerada residente fiscal. 
Shakira não deixou barato na declaração. Ela disse que durante quase uma década foi tratada como culpada, que cada etapa do processo foi vazada, distorcida e amplificada, e que seu nome foi usado para enviar uma mensagem ameaçadora a outros contribuintes. Citou noites em branco, saúde afetada, reputação destruída por campanhas orquestradas.  Seu maior desejo, segundo o comunicado, é que a decisão sirva de precedente para os milhares de cidadãos anônimos que todos os dias são esmagados por um sistema que presume a culpa e obriga as pessoas a provar a inocência a partir da ruína.  Isso não é nota de assessoria. Isso é uma mulher que passou oito anos sendo humilhada publicamente soltando o verbo com razão jurídica nas mãos.
O timing é para enquadrar. Shakira confirmou presença no show do intervalo da final da Copa do Mundo 2026, no dia 19 de julho no MetLife Stadium, ao lado de Madonna e BTS, com curadoria de Chris Martin.  Ela também lançou “Dai Dai”, a música oficial do torneio, com clipe gravado no Maracanã.  A mulher que a Espanha tentou destruir vai encerrar o verão do hemisfério norte cantando para dois bilhões de pessoas, com R$ 352 milhões de volta na conta. Piqué, que era quem morava em Barcelona, aparentemente ficou de fora de todo o noticiário desta segunda-feira. Como sempre.