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Kátia Flávia
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El Niño acende alerta para 7,6 mil comunidades quilombolas no Brasil

UNICEF estima precisar de US$ 173 milhões para ações de preparação em países prioritários da África. No Brasil, Liu Berman alerta que o impacto climático também pode atingir renda, cultura e saberes de comunidades tradicionais.

Kátia Flávia

21/09/2026 11h45

O El Niño pode atingir muito mais do que casas, estradas e plantações. Liu Berman alerta para os riscos às fontes de renda, tradições e saberes de comunidades quilombolas.

O El Niño pode atingir muito mais do que casas, estradas e plantações. Liu Berman alerta para os riscos às fontes de renda, tradições e saberes de comunidades quilombolas.

Gente, eu estava saindo da manicure quando esse material chegou e parei numa informação: mais de 7,6 mil comunidades quilombolas existem no Brasil. Aí fui conferir o resto, porque quando clima encontra pobreza, distância dos grandes centros e pouca infraestrutura, a conversa deixa de ser só sobre previsão do tempo.

O alerta internacional é grande. A UNICEF afirma que o El Niño de 2026 pode expor mais de 162 milhões de crianças aos efeitos de secas e enchentes no leste e sul da África. Para ações de preparação e resposta dentro de sua estrutura humanitária de 2026, a organização diz precisar de US$ 173 milhões, com a meta de alcançar 24,6 milhões de crianças e familiares.

E aqui tem uma correção importante em relação ao material que recebi: esses US$ 173 milhões não são uma estimativa de quanto o El Niño “vai custar” ao mundo ou ao Brasil. É o financiamento que a UNICEF informa necessitar para sua resposta nos países prioritários da África Oriental e Austral.

No Brasil, o Censo 2022 identificou milhares de localidades quilombolas. É justamente para essas comunidades e outros territórios afastados que Liu Berman, presidente do Instituto Reinventando Futuros, pede atenção. A preocupação dela não está apenas no estrago imediato de uma seca ou de uma chuva forte, mas no que pode desaparecer junto com a renda de uma comunidade.

Artesanato, cerâmica, turismo, pesca, história oral e conhecimentos transmitidos entre gerações entram nessa conta. Liu defende que a resposta às emergências climáticas aproveite aquilo que cada território já sabe fazer, em vez de olhar para essas populações apenas quando o desastre já aconteceu.

“Quando esses saberes e tradições são ameaçados, perde-se a própria capacidade de sustentação da comunidade”, afirma ela no material enviado à coluna.

É uma discussão que conversa diretamente com o trabalho que Liu já desenvolve. O Instituto Reinventando Futuros atua com economia circular, criatividade, sustentabilidade e desenvolvimento territorial; a própria UNFCCC registrou uma atividade da instituição na COP30, em Belém, em 2025.

No Quilombo do Muquém, em União dos Palmares, Alagoas, ela cita o artesanato e a cerâmica como exemplos de atividades que carregam cultura, mas também colocam dinheiro dentro da comunidade. Para Liu, fortalecer essas vocações pode ajudar os territórios a atravessar crises climáticas com maior autonomia.

E foi justamente essa parte que me pegou.

Porque quando chega uma enchente ou uma seca, a gente vê estrada, casa, plantação e ponte destruídas. Isso aparece na televisão.

O que quase nunca aparece é o que pode desaparecer sem fazer barulho: um trabalho, uma tradição, uma técnica aprendida com a avó, uma história que só aquela comunidade sabe contar.

E isso, meu amor, depois que some, não existe verba emergencial que compre de volta.

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