Eu estava no lobby do hotel em Ibiza, mala já no carrinho, fatura na mão, fazendo a conta de quanto custou essa temporada, quando o telefone tocou em chamada de vídeo do Rio. Fatura de hotel é a hora da verdade de qualquer perua. Aí minha fonte, que é cruel, abriu o edital da Caixa na tela e disse: a sua conta está salgada, mas espera até ver essa.
A Caixa Econômica Federal marcou para 20 de agosto o leilão do apartamento que era do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), na Avenida Pasteur, em Botafogo. São 101 metros quadrados, terceiro andar, quarto, sala, cozinha, lavabo, banheiro e área de serviço, com vista para a Baía de Guanabara. Avaliação de R$ 1,011 milhão, lance mínimo de R$ 644,3 mil, desconto de 36,27%.
O imóvel foi comprado em 2017 por R$ 1 milhão, com R$ 780 mil financiados junto à própria Caixa, contrato de 420 meses no SAC e prestação inicial na casa dos R$ 9,7 mil. Alienação fiduciária é aquele arranjo em que a casa é sua no papel, mas o banco segura a chave simbólica até a última parcela cair. Parou de pagar, o banco toma de volta e vende.
E agora a parte que me fez sentar direito na poltrona do lobby. O banco tentou intimar o devedor pessoalmente e não conseguiu localizar o rapaz. Recorreu a edital eletrônico publicado nos dias 5, 6 e 7 de novembro do ano passado, ninguém apareceu no cartório para saldar a dívida dentro do prazo, que terminou em janeiro, e em 30 de março de 2026 a propriedade foi consolidada em nome da Caixa. Eduardo está nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025.
Tem ainda uma averbação de indisponibilidade na matrícula, ordenada pelo ministro Alexandre de Moraes, dessas que espantam comprador desavisado. Pedro Gomide, especialista em leilões da Smart Leilões, explica que o gravame perdeu o objeto: ele valia sobre os direitos de devedor fiduciário, e como o banco já consolidou a propriedade e as duas praças obrigatórias passaram sem interessado, quem arrematar pede a baixa e limpa a matrícula. Este agora é o terceiro leilão, na modalidade licitação aberta, em que vence quem oferecer mais acima do mínimo.
A Caixa não abre o valor da dívida e alega sigilo bancário. O ex-deputado não se manifestou. E assim, no dia 20, um apartamento com vista para a Guanabara vai ao martelo por 36% menos do que vale, enquanto eu pago minha fatura em euro sem chorar. Cada uma com o boleto que consegue honrar.