Estava eu ontem à tarde sentada numa osteria em Ostuni esperando o peixe chegar, com um Primitivo na mão e aquela preguiça boa de quem não tem nada urgente pra fazer, quando uma fonte me encaminhou a matéria sobre DiCaprio e Eastwood. Larguei o copo, li três vezes e confirmei: Hollywood guarda rancor com muita categoria.
DiCaprio e Clint Eastwood se encontraram profissionalmente uma única vez, em ‘J. Edgar’ (2011), e a experiência deixou cicatriz dos dois lados. Leo topou reduzir seu cachê de 20 milhões de dólares para apenas 2 porque queria muito viver J. Edgar Hoover, fundador e chefão do FBI. A Warner Bros, aproveitando o humor de austeridade do astro, escalou Eastwood na direção, aquele senhor de 95 anos famoso por nunca rodar a mesma cena duas vezes.


O conflito estava anunciado antes mesmo das filmagens. Judi Dench, que coestrelou o filme, contou que ela e Leo estavam sentados conversando sobre a vida quando Eastwood simplesmente avisou que a cena estava feita, obrigado. O diretor não estava brincando: declarou ao Film Comment que gosta que tudo pareça dito pela primeira vez. Leo, como o próprio Iñárritu revelou, é o cara que pergunta “vamos fazer mais uma vez?” toda hora.
A conta no papel até fechou bem: 35 milhões de orçamento, 84 de bilheteria, sucesso financeiro indiscutível. Mas você imagina o que é preparar meses um personagem histórico, abrir mão de 18 milhões por amor ao papel e descobrir que seu diretor já considera performance encerrada enquanto você ainda está aquecendo? A tensão que ficou naquele set explica muito o silêncio de quatorze anos entre os dois.
De lá para cá, Leo foi para Iñárritu, ganhou o Oscar e nunca mais olhou para trás. Eastwood seguiu filmando do jeito dele, uma tomada, tchau. Duas genialidades incompatíveis que dividiram o mesmo set por necessidade orçamentária da Warner, e o cinema ficou mais pobre por isso, porque esse é o tipo de parceria explosiva que, bem conduzida, vira lenda.