Minha Nossa Senhora do Controle Remoto, a DiaTV resolveu entrevistar Kim Kataguiri e parte do elenco reagiu como se Rafa Dias tivesse colocado um rinoceronte para apresentar o programa matinal.
Lorelay Fox, Diva Depressão e outros nomes ligados à emissora vieram a público criticar a entrevista. Houve quem dissesse que o convidado não representa o público da casa e quem questionasse a maneira como a conversa foi conduzida.
A segunda crítica pode ser legítima. Entrevista política precisa de pesquisa, contraponto e pergunta difícil. O entrevistador não está ali para servir cafezinho ideológico e perguntar se o convidado prefere verão ou inverno.
Mas dizer que a entrevista não deveria ter ocorrido porque Kim Kataguiri não representa o público da DiaTV é outra história. E, sinceramente, é uma história bastante perigosa para quem trabalha com comunicação.
A DiaTV é uma emissora. Está no YouTube, funciona 24 horas, tem grade de programação, programas ao vivo, apresentadores, patrocinadores, plateia e distribuição em plataformas de televisão por streaming. Não estamos falando de um grupo fechado de amigos escolhendo quem entra na festa de aniversário.

Televisão existe para entreter, informar, questionar e provocar.
Um veículo voltado ao público LGBTQIA+ não perde sua identidade quando entrevista alguém que pensa diferente. Perde sua força quando passa a acreditar que só pode conversar com pessoas previamente aprovadas pela audiência.
Entrevistar não significa apoiar.
Convidar um político não significa fazer campanha para ele.
Dar espaço para perguntas não significa entregar um altar, duas velas e a chave da emissora.
A teoria mais elementar da comunicação ensina que os meios não apenas reproduzem aquilo que o público já pensa. Eles selecionam temas, colocam assuntos em circulação e ajudam a sociedade a discutir conflitos. O jornalismo existe também para retirar o cidadão da zona confortável e apresentá-lo a ideias, personagens e contradições que ele talvez jamais procurasse sozinho.
A boa entrevista política não é aquela feita com o amigo, com o aliado ou com o convidado que pensa exatamente como o apresentador. Isso é conversa de condomínio. A boa entrevista acontece quando existe discordância, preparo e capacidade de confronto.

Rafa Dias construiu sua trajetória justamente a partir da curiosidade. Antes da DiaTV, apresentou o Programa de Um Cara Só e entrevistou pessoas de diferentes áreas e perfis. A emissora que criou nasceu com essa mesma inquietação, juntando televisão tradicional, linguagem de internet e uma programação que dificilmente encontraria espaço na TV aberta convencional.
Rafa não criou uma televisão para repetir o que já estava pronto. Criou para ampliar espaço.
É curioso, portanto, que profissionais contratados por uma emissora plural tratem uma decisão editorial como traição ao público. Eles têm todo o direito de discordar. O que merece discussão é a maneira como uma divergência interna foi transformada em censura pública à própria empresa que lhes oferece tela, estrutura, equipe e alcance.
Há uma diferença entre liberdade de expressão e falta de compromisso com o projeto coletivo.
Apresentadores não precisam concordar com todas as decisões da direção. Nenhuma redação funciona assim. Mas existe uma responsabilidade profissional ao expor publicamente o próprio veículo, especialmente antes de reconhecer que uma emissora precisa tomar decisões editoriais que ultrapassem o gosto individual de cada integrante do elenco.
Também é contraditório defender diversidade apenas quando todas as pessoas presentes concordam.
A comunidade LGBTQIA+ construiu sua história enfrentando silenciamento, apagamento e exclusão. Por isso mesmo, deveria conhecer melhor do que ninguém o valor do debate, da liberdade e do direito de ocupar a conversa pública.

Pluralidade não exige ingenuidade. Kim Kataguiri poderia e deveria ter sido confrontado sobre qualquer declaração, proposta ou posição que afetasse pessoas LGBTQIA+. Caso isso não tenha acontecido, critique-se a entrevista, a preparação e as perguntas.
O que não faz sentido é condenar o convite.
Ao entrevistar alguém que não pertence à sua bolha, a DiaTV cumpre uma função essencial da comunicação. Ela coloca ideias diante do público e permite que esse público avalie, concorde, rejeite ou questione.
A audiência não precisa ser protegida da existência de opiniões diferentes. Precisa ser respeitada como adulta e capaz de formar seu próprio julgamento.
Uma televisão feita para a diversidade não pode ter medo da divergência.

A DiaTV acertou ao convidar Kim Kataguiri. Talvez tenha errado na maneira de entrevistá-lo, caso tenha faltado firmeza e contraponto. Mas o erro maior seria transformar uma emissora inteira em uma sala onde todos falam a mesma coisa, riem das mesmas piadas e concordam antes mesmo de o programa começar.
Isso não seria pluralidade.
Seria apenas uma bolha com iluminação de estúdio.
Eu deixei o texto duro com os apresentadores, mas sem atribuir falta de profissionalismo como um fato comprovado. A crítica está na postura e no efeito público dela, o que deixa a coluna mais forte e juridicamente mais cuidadosa.