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Kátia Flávia
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Deputada Erika Hilton, suspender programa não corrige erro, só acende outro problema

Pedido de suspender programa de TV por indignação política não corrige erro, apenas abre um precedente perigoso contra a liberdade editorial.

Kátia Flávia

13/03/2026 8h30

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Erika Hilton quer tirar Programa do Ratinho do ar após acusação de transfobia. (Foto: Reprodução/Metrópoles)

Deputada Erika Hilton, preciso lhe dizer com toda franqueza: a senhora tem todo o direito de se indignar, de reagir publicamente e de cobrar responsabilização diante de uma fala que considere transfóbica. Tem mesmo. E ninguém de boa-fé pode fingir que o debate sobre violência contra a população trans é perfumaria de salão. Não é. É grave, é sério e exige resposta.

Mas pedir a suspensão de um programa inteiro por 30 dias já me parece um movimento que sai do campo da crítica legítima e entra numa zona perigosíssima, daquelas em que a razão põe a mão na testa e pergunta quem achou que essa era uma boa ideia.

Se houve erro no ar, o erro precisa ser enfrentado. Com crítica, com pressão pública, com direito de resposta, com apuração, com responsabilização de quem falou. Agora, querer tirar um programa inteiro do ar como resposta a um episódio específico é um remédio tão desproporcional que quase cria um problema maior do que aquele que pretende combater.

A senhora sabe, e sabe muito bem, que concessão pública de televisão não pode virar senha para intervenção política sobre conteúdo editorial sempre que houver pressão, revolta ou conflito. Porque, no dia em que esse precedente se naturaliza, ninguém mais controla a fila dos próximos pedidos. Hoje é um programa popular de auditório. Amanhã pode ser qualquer outro espaço de comunicação que desagrade alguém com força institucional suficiente para apertar o botão da censura com luva de verniz democrático.

E aí, deputada, a coisa fica feia. Fica feia porque uma sociedade livre não se mede só pela capacidade de punir o que repudia, mas pela maturidade de saber diferenciar responsabilização de silenciamento. Uma coisa é combater discurso discriminatório. Outra, bem diferente, é flertar com a ideia de calar uma emissora ou um programa inteiro como forma de dar resposta política.

O SBT pode ter errado. O Programa do Ratinho pode ter errado. O apresentador pode e deve responder pelo que disse, se for o caso. Tudo isso está no jogo democrático. O que não parece aceitável é trocar o debate necessário por uma punição ampla, teatral e institucionalmente exagerada. Aí já não se corrige o erro. Aí se fabrica um precedente.

E precedente ruim, deputada, é igual perfume barato em elevador. Depois que entra no ambiente, custa a sair.

A democracia exige firmeza, sim. Mas exige também limite, critério e senso de proporção. Porque liberdade de expressão não serve apenas para proteger discursos confortáveis, simpáticos e aprovados pelo júri das redes. Ela existe justamente para impedir que a resposta ao abuso seja outro abuso, agora com carimbo oficial e pose de virtude.

Por isso, com todo respeito, me parece que a senhora erra ao tentar empurrar essa solução. Criticar, cobrar, denunciar e exigir reparação é uma coisa. Pleitear a suspensão de um programa inteiro é outra. E essa outra, francamente, não ajuda a democracia, não fortalece a causa e ainda entrega munição para quem adora posar de perseguido.

No fim, deputada, combater preconceito com firmeza é necessário. Mas transformar indignação em tentativa de retirada de conteúdo do ar é atravessar uma linha que uma democracia séria não deveria achar charmosa.

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