A sambista e compositora Geovana venceu a primeira batalha judicial contra Marcelo D2 e a Universal Music Brasil envolvendo a música “Tataruê”, clássico lançado originalmente por ela em 1975. Segundo o ICL Notícias, a Justiça do Rio determinou, em decisão liminar, que o nome artístico da artista seja incluído nos créditos do videoclipe e de todas as publicações da versão regravada da obra.
Eu estava no meu quartel-general improvisado no Cosme Velho, com a mesa parecendo central de operação de sexta-feira, quando essa história entrou na minha frente e me fez largar até a caneta colorida que eu uso para fingir organização. Porque uma coisa é fofoca de famoso pedindo volta para ex. Outra é uma sambista histórica, mulher negra, compositora popular, tendo que ir à Justiça para ver o próprio nome aparecer direito na música que escreveu. Aí a conversa muda de tom.

A liminar foi assinada pelo desembargador Jean Albert de Souza Saadi e representa a primeira vitória de Geovana no processo. Em caso de descumprimento, foi fixada multa diária de R$ 5 mil, limitada inicialmente a R$ 100 mil. A ação segue em tramitação e ainda vai analisar outros pedidos da artista.
“É o mínimo, pois é apenas a inclusão do meu nome de maneira correta, enquanto autora, sambista e compositora da música ‘Tataruê’. Eu vou lutar até o fim pela minha arte, minha música, pois é a única coisa que eu tenho”, reagiu Geovana ao ICL.
Marcelo D2 regravou “Tataruê” no álbum “Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Vol. 3”, lançado em 2025. Na ação, Geovana afirma que a obra foi usada sem que ela fosse procurada previamente pela gravadora ou pelo artista. Ela também diz que seu nome não foi devidamente identificado nos créditos e que não recebeu remuneração pela utilização da música.
A sambista contou que sabia que D2 cantava a canção em shows porque era marcada no Instagram. Segundo ela, sua produção chegou a convidá-lo para uma gravação conjunta, mas depois ela foi surpreendida ao saber da regravação. “Tomei um susto, não sabia, não soube o que dizer e fiquei sem graça”, relatou. Geovana afirmou ainda que tentou contato com a Universal, mas não houve acordo.
Eu fiquei presa nessa frase: “é a única coisa que eu tenho”. Porque para compositor popular, crédito não é detalhe técnico escondido em plataforma. Crédito é memória, é dinheiro, é legado, é o nome da pessoa sobrevivendo onde o mercado muitas vezes tenta passar por cima.
Geovana, nome artístico de Maria Tereza Gomes, nasceu no Rio em 1948, foi criada na Rocinha, trabalhou como doméstica, vendeu livros, atuou como ambulante e construiu uma trajetória enorme no samba. Ela tem mais de 300 canções no repertório e venceu a Bienal do Samba de 1971 com “Pisa Nesse Chão com Força”.
A obra dela foi gravada por nomes como Clara Nunes, Jair Rodrigues e Martinho da Vila. Mesmo assim, Geovana enfrentou longos períodos de ostracismo, chegou a ficar 32 anos sem gravar e afirma que o preconceito racial e de gênero atravessou sua carreira desde o início.
“Eu já percebia que era difícil porque via poucas pessoas negras e poucas mulheres. Trabalhei como doméstica, na feira, com reciclagem. Ganhei a Bienal de Compositores em 1971 e só consegui gravar meu primeiro LP quatro anos depois. Passei sede, fome. Ouvia que ‘essa vida de artista era para branco’”, disse.

Do outro lado, Marcelo D2 se manifestou por meio de seu representante legal, Thiago Endrigo. Ele afirmou ao ICL que o artista soube da ação e da liminar pela imprensa, e sustentou que os créditos da obra sempre estiveram disponíveis nas plataformas digitais. Segundo a defesa, a discussão seria sobre a forma de identificação da autora, se pelo nome civil ou pelo nome artístico.
Para mim, o ponto central é que essa briga é maior do que uma faixa. É sobre quem assina a história do samba quando ela volta a circular com embalagem nova, artista famoso e gravadora grande. Geovana está dizendo: essa música tem mãe, tem origem, tem nome e tem uma mulher por trás. E, sinceramente, se o samba é tradição, o mínimo é respeitar quem escreveu a tradição., tem origem, tem nome e tem uma mulher por trás. E, sinceramente, se o samba é tradição, o mínimo é respeitar quem escreveu a tradição.