Estava tomando café aqui no Cosme Velho quando minha amiga Fernanda me ligou com aquela voz de quem acabou de ver um acidente na estrada, sabe? “Abre o Instagram agora, abre o perfil da Debora Rocha.” Larguei a xícara, abri o vídeo, e fiquei parada no meio da sala com a cara de quem acabou de receber extrato bancário sem ter bebido antes.
A história é de perder o sono. Debora Rocha estava hospedada na Carolina do Norte, em viagem aos Estados Unidos, quando um poodle marrom do vizinho atravessou a cerca e foi até onde ela estava. Ela tentou devolver o animal. O poodle agradeceu com uma mordida que arrancou pedaço do braço. Detalhe fundamental: ela havia perguntado antes à dona se os cães mordiam. A resposta foi não. O poodle, obviamente, não assinou esse acordo.


O que veio depois é onde a história vira pesadelo. Nos Estados Unidos, a vacina antirrábica não existe em farmácia, não existe em clínica comum. Só se aplica em Emergency Room, o pronto-socorro americano, que cobra entrada como se fosse camarote de carnaval. Debora ainda tinha voo para Orlando, seguiu com o braço machucado e foi direto ao hospital ao pousar. Lá descobriu que o protocolo exige quatro doses de vacina mais imunoglobulina aplicada diretamente na ferida. As duas primeiras doses ainda em Orlando, as demais de volta ao Brasil. Cada dose da vacina: US$ 2,5 mil. A imunoglobulina: US$ 4 mil. A taxa de entrada no pronto-socorro: em torno de US$ 5 mil. Conta final consolidada: US$ 17 mil. Quase R$ 84 mil. Por uma mordida de poodle.
O vídeo ultrapassou 70 mil visualizações e os comentários se transformaram numa missa em louvor ao SUS. Brasileiros que nunca puseram um post de gratidão ao sistema público de saúde na vida apareceram em peso escrevendo “Viva o SUS” como se tivessem tido uma revelação espiritual. E tinham razão. O episódio escancarou algo que a gente sabe mas não sente na pele: nos Estados Unidos não existe sistema público universal, atendimento de emergência tem custo absurdo para quem não tem cobertura privada específica, e o seguro-viagem não é detalhe, é o que determina se você volta para casa com uma história ou com uma dívida de cinco anos.
A Debora, por sorte, tinha seguro-viagem internacional com cobertura de até US$ 175 mil em despesas médicas, e a seguradora assumiu o pagamento. As duas últimas doses ela toma de graça no Brasil, pelo SUS. Mas eu fiquei aqui pensando nas pessoas que passam por isso sem seguro, que chegam num hospital americano sozinhas, machucadas, sem falar inglês e sem cobertura. O poodle pode ser pequeno. A conta, não.