Veronica Chaves de Carvalho Costa, a Mãe Loira do Funk, é muito mais do que a ex-vereadora presa nesta semana no Rio de Janeiro. Antes da condenação definitiva de 10 anos e 8 meses por tortura contra o ex-marido Márcio Costa, ela construiu uma carreira de décadas como apresentadora, cantora, radialista, empresária do funk e uma das figuras mais reconhecidas dos bailes cariocas.
A mesa já tinha virado conversa de sobremesa quando eu mergulhei na trajetória dela. E é uma história de ascensão popular muito particular: Veronica saiu da Zona Norte do Rio, cresceu perto do Morro do Juramento e se tornou uma mulher que falava diretamente com a juventude dos bailes, antes de levar esse capital para a televisão, o rádio e a política.
A fama começou ainda na adolescência, quando ela conheceu Rômulo Costa, nome central da Furacão 2000. Os dois se casaram, tiveram os filhos Jonathan e Jennifer e dividiram os palcos, os bastidores e os bailes de uma empresa que ajudou a transformar o funk carioca em fenômeno nacional.
Nos anos 1990, a Furacão 2000 era mais do que uma equipe de som: era uma máquina de revelar MCs, criar hits, levar multidões aos bailes e ocupar rádio e televisão. Veronica não era figura decorativa naquela engrenagem. Ela apresentava eventos, conversava com o público, fazia chamadas, promovia artistas e construiu uma persona que misturava glamour, conselho e energia de mãe da comunidade.

Enquanto as amigas discutiam se pediam doce ou café, eu só pensava no tamanho desse personagem que ela criou. O apelido Mãe Loira do Funk virou uma marca. Ela falava com as “glamurosas”, as “purpurinadas” e as “poderosas”, transformando a própria presença em linguagem de pertencimento para muitas meninas que frequentavam os bailes.
Veronica também atuou como apresentadora em programas ligados ao universo do funk na televisão e no rádio. Uma pesquisa acadêmica sobre as mulheres do gênero registra que ela se tornou uma espécie de conselheira daquela audiência, combinando divulgação musical, conversas de autoestima e incentivo à participação feminina na cena.
A música entrou como extensão dessa imagem. Veronica lançou faixas como “Desce Glamurosa”, “Bonde das Glamurosas”, “Vem com a Mãe Loira”, “Que Pressão É Essa” e “Academia da Mãe Loira”. Seu nome também ficou ligado ao imaginário de “Glamurosa”, sucesso de MC Marcinho que citava Veronica como uma das mulheres que simbolizavam o glamour do funk naquele momento.

Quando o casamento com Rômulo terminou, no início dos anos 2000, Veronica saiu da Furacão 2000 e montou a própria equipe de som, a Glamourosa. Era a tentativa de manter o controle sobre a própria marca, os bailes e os artistas, sem depender da estrutura que havia ajudado a popularizar.
Eu pedi um café curto, porque uma história dessas não cabe num resumo preguiçoso. No mesmo período em que reorganizava a vida profissional, Veronica entrou na política: foi eleita vereadora do Rio em 2000, pelo PL, e assumiu o primeiro mandato em 2001. A Câmara registra passagens dela por cinco legislaturas, entre 2001 e 2024.
Na vida pública, a Mãe Loira do Funk defendeu a valorização do funk, políticas para juventude, geração de emprego e iniciativas voltadas às mulheres. Presidiu a Comissão de Defesa da Mulher e a Comissão de Prevenção às Drogas. Também apresentou e assinou projetos ligados a prevenção da violência sexual, campanhas de conscientização sobre substâncias psicoativas e melhorias urbanas.
A trajetória partidária foi movimentada: Veronica passou por PL, PMDB/MDB, PR, DEM e Republicanos. Em 2002 e 2010, tentou se eleger deputada estadual, sem sucesso; em 2022, disputou vaga na Câmara dos Deputados, mas não se elegeu. Nos anos em que esteve no Palácio Pedro Ernesto, continuou usando o nome artístico e a força eleitoral construída nos bailes.
O capítulo que agora redefine sua história pública começou em fevereiro de 2011. Márcio Costa procurou a Polícia Civil e denunciou que teria sido mantido amarrado, agredido e atingido por uma substância que provocou lesões. A denúncia virou processo criminal. Em 2019, Veronica foi condenada em primeira instância a cinco anos e dez meses; em 2023, a 2ª Câmara Criminal elevou a pena para 10 anos e 8 meses, em regime fechado.
Nesta semana, após o trânsito em julgado, a Justiça determinou o cumprimento da pena e a ex-vereadora foi presa em Petrópolis. Ela nega ser criminosa, diz que sofreu um erro do Judiciário e afirma que o ex-marido seria o agressor. A condenação, no entanto, tornou-se definitiva, e a pena inclui a perda do mandato político.
Eu saí daquela mesa com uma certeza incômoda: a história de Veronica Costa tem o brilho, o exagero e a potência de uma era inteira do funk, mas também termina, por enquanto, sob o peso de uma condenação grave. Da musa dos bailes à Mãe Loira do Funk, da televisão à Câmara, ela construiu uma figura pública gigantesca. Agora, enfrenta o capítulo mais duro e irreversível dessa trajetória.