Larguei a bica no pires, ali na esplanada em frente ao Palácio Nacional de Sintra, e o café escorreu pela mesa. O Ministério Público do Rio de Janeiro abriu investigação para saber se influenciadores estão divulgando cassinos e casas de apostas ilegais no Instagram depois da proibição das bets. Entre os nomes monitorados está Davi Brito, campeão do BBB 24. A irmã dele, Raquel Brito, que passou por A Fazenda, também é suspeita. E Bia Miranda, outra veterana do reality da Record, aparece acusada de driblar a lei.
O mecanismo é simples e por isso funciona. O influenciador posta um link e jura que aquilo é uma plataforma de adivinhação. O seguidor clica e encontra joguinhos em que, para brincar, precisa apostar dinheiro. Segundo o MP, o link aparecia no meio de cenas banais dos stories, conversa com amigos, vídeo pretensamente engraçado, justamente para escapar das denúncias da plataforma. Quem ganha é o site e quem divulga. Quem perde é o seguidor que depositou num lugar sem licença nenhuma.

Vamos aos apelidos, todos com nota fiscal. Davi é o Mestre da Resenha, porque foi exatamente assim que ele chamou a bet ilegal num dos posts. Bia Miranda vira a Professora do Não É, autora da frase que merece moldura: “Não é bet, não é aposta. Você tem que completar a palavra para ganhar”. Mudar o nome do produto para fugir da regra é o rebranding mais velho do mercado. Só que aqui a harmonização facial ficou tão mal feita que a própria legenda confessa o procedimento.
O episódio anterior dessa novela tem data. Em 25 de setembro, Lula assinou a Medida Provisória 1.394, que proibiu apostas de quota fixa e cassinos online, inclusive publicidade e patrocínio. Os sites licenciados começaram a sair do ar em 6 de outubro. Desde a proibição, o Ministério da Fazenda já derrubou mais de 11 mil sites ilegais, e um dos que Raquel divulgou não está mais no ar. A investigação nasceu de denúncias à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, depois de um vídeo do jornalista Gabriel Perline mostrando como a turma das bets estaria contornando a lei.
A leitura que me tira do sério está no detalhe que pouca gente notou. O MP também recebeu denúncias contra influenciadores menores que até setembro divulgavam bets legalizadas e agora apura se parte deles migrou para plataformas ilegais para manter os ganhos. Ou seja, a proibição fechou a loja da frente e uma parte do time de vendas pode ter ido trabalhar nos fundos. Isso ainda é apuração em andamento, e eu digo com todas as letras. Mas é a pergunta que o mercado inteiro deveria estar fazendo.
Para quem lê, a conta é direta. Site ilegal não tem autorização, não tem fiscal, não tem a quem reclamar. Se ele some do ar, como já aconteceu com um dos links divulgados, o dinheiro some junto. E se o seu influenciador favorito aparece no meio de um churrasco jurando que aquilo não é aposta, desconfie da palavra que ele está te mandando completar.

Os três foram procurados desde a manhã de quinta (8). Só Davi respondeu, disse que ia se manifestar e não mandou posição nenhuma. Prometeu resenha e entregou silêncio. No paredão do Ministério Público, campeão de reality não tem imunidade.