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Kátia Flávia
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Daniel Lirio mostra como uma mentira do pai pode virar crise existencial

Psicanalista paulista transforma uma mentirinha sobre sobremesa em 80 páginas de filosofia, psicanálise e Clarice Lispector. Kátia leu e ligou pra terapeuta na hora

Kátia Flávia

16/04/2026 16h30

Daniel Lirio mostra como uma mentira do pai pode virar crise existencial

Daniel Lirio mostra como uma mentira do pai pode virar crise existencial

Amores , estava olhando o mar Tirreno com aquele olhar de mulher que já viu muita coisa, quando chegou nas minhas mãos o release de um livro que me fez parar o espresso na metade. Um pai nega sobremesa pro filho. O filho flagra o pai comendo doce escondido. E aí, minha gente, o mundo acabou. Não é metáfora, é literalmente o enredo.

“Meu pai mentiu pra mim”, do psicanalista e mestre em Psicologia Social pela USP Daniel Lirio, sai pela Editora Quelônio com 80 páginas, R$ 54,00 e um poder de destruição emocional que a capa azul com lagartixa não entrega. O protagonista é Tomás, 12 anos, que descobre que se o pai mente sobre pudim, o pai pode estar mentindo sobre absolutamente tudo. Freud, Clarice Lispector, Baudrillard e Frantz Fanon aparecem como personagens ao longo de um dia escolar que vira um colapso filosófico de fazer inveja a muita dissertação de doutorado.


O livro já circula nas redes com aquela energia de “obra que todo adulto vai reconhecer sem querer admitir”, e a editora Quelônio, que tem olho clínico pra essas narrativas que chegam quietinhas e explodem, apostou certeiro. Sem polêmica, sem lacração, sem feat de influencer — só um menino desconfiando da realidade e levando o leitor junto sem pedir licença.

A leitura pirua da Kátia é a seguinte: Daniel Lirio fez aquilo que a psicanálise sonha mas raramente consegue, que é transformar um conceito técnico — a quebra de confiança como fratura de mundo — em narrativa que qualquer pessoa de 12 a 70 anos entende antes do segundo parágrafo. A estratégia de colocar Ulisses como amigo do menino e Milton Santos como voz social é o tipo de jogada intelectual que parece arriscada e funciona porque o autor sabe exatamente onde está pisando.

Oitenta páginas, R$ 54,00 e um pai comendo doce escondido. Minha gente, eu já li trilogias inteiras que explicaram menos sobre a condição humana do que essa mentirinha de sobremesa. Vou ler de novo no barco pro sul da Itália e recomendo que você leia também, de preferência longe do seu pai, só por precaução.

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