Eu juro que estava ali, plena na maca da drenagem na Barra da Tijuca, pensando em novela, quando o grupo de jornalistas começou a apitar mais que carro alegórico em curva: tinha morrido Cristiane Sampaio, 40 anos, produtora da TV Câmara, repórter de Brasília daquelas que seguram CPF de deputado no olhar. A notícia veio seca, dura, crua, como o texto de plantão manda: encontrada morta em casa, em Brasília, sem sinais de violência, causa ainda não divulgada.
Cristiane era cearense, formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará, com pós em Linguística e especialização em Administração Pública, aquela ficha técnica que faria qualquer RH de redação suspirar. No currículo, uma passagem pela TV Verdes Mares, afiliada da Globo no Ceará, além de trabalho em O Globo, assessoria do Ministério Público e anos de militância em redações e sindicatos. Em 2016, ela pegou seu crachá, sua mala e foi para Brasília, onde virou setorista do Congresso Nacional pelo Brasil de Fato, cobrindo política e direitos humanos por quase uma década até migrar para a produção de programas na TV Câmara.

A autodefinição dela nas redes era daquelas que já viram lead bom: “repórter de alma amanteigada e em busca da palavra exata”. Alma amanteigada, no meu dicionário de perua, é gente que sente muito, chora por pauta, se indigna com orçamento secreto e, ainda assim, entrega texto limpo, alinhado, pronto para entrar no ar sem precisar de mutirão de edição. Não é perfil de influencer de publipost, é categoria raríssima de jornalista que sabe onde dói na democracia e como transformar isso em matéria entendível até para quem só entrou no site para ver fofoca de reality.
A morte de Cristiane está cercada de silêncio oficial: foi encontrada sem vida no imóvel em que morava, em Brasília, e não há confirmação da causa. Nada de laudo divulgado, nada de versão fechada, só a dor registrada e repetida nas notas que se limitam a entregar o básico, como manda o manual quando a família ainda está em choque e a investigação caminha aos poucos. Eu, daqui do meu camarim interno, respeito o lacre da informação: a gente sugere o impacto, mas não fantasia em cima de causa de morte que ninguém confirmou.
O que se escancara, sim, é o tamanho do buraco que ela deixa. Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, Coletivo de Mulheres Jornalistas, Brasil de Fato, colegas de TV Câmara, todo mundo publicou nota, textão, fio, lembrando que Cristiane foi diretora do sindicato por duas gestões, sempre na linha de frente da defesa de direitos da categoria. A Cris da roda de amigos era a mesma da assembleia: firme, articulada, com vocabulário de quem sabe negociar com chefia e, ao mesmo tempo, puxar carro de som de manifestação sem errar o slogan.
Em Brasília, ela virou aquele tipo de personagem que não aparece no vídeo da sessão, mas segura a estrutura do espetáculo. Produzia programas na TV Câmara, ajudava a pensar pauta, formatar quadro, alinhar convidado, tudo esse backstage que o público não vê, mas que determina se o telespectador vai mudar de canal ou ficar ali, hipnotizado em plena terça-feira legislativa. No Congresso Nacional, fontes lembram da jornalista que sabia traduzir jargão parlamentar, explicando PEC travada, votação arrastada, manobra de bastidor, sempre com um olho no texto e outro no impacto social.
Nas redes, amigos resgataram fotos, festas, manifestações, plantões, as legendas cheias de carinho chamando de “Cris”, a produtora que fazia piada em corredor sem perder a firmeza na hora da entrevista dura. Os coletivos ligados a direitos humanos e movimentos populares também lamentaram a morte dela, lembrando a cobertura engajada de temas sociais, reforma agrária, lutas de base, tudo aquele universo que raramente ganha holofote mas muda a vida de muita gente. Não é exagero dizer que Cristiane cobria um país inteiro a partir de Brasília, sem precisar de efeito especial.
A comoção em torno do nome dela vem do lugar mais bonito da nossa profissão: o reconhecimento dos pares. Para quem faz entretenimento, é tentador transformar tudo em trama, mas, no caso de Cris, o roteiro que importa é a ficha profissional, o compromisso com pauta séria, a defesa da categoria em sindicato e a construção de uma trajetória sólida em plena era de fake news. A morte precoce dela lembra que, por trás da tela, existe uma leva de trabalhadores que segura o noticiário em pé, sem glamour, sem close no tapete vermelho, mas com um peso gigante na forma como o país enxerga a própria política.