Eu estava indo em direção a Bari com uma vista de cinema pela janela do trem quando minha fonte ligou direto da Bahia gritando: “Kátia, eles meteram personagem animado dentro do quarto de hotel!” Parei tudo, peguei o bloco, e agora vocês vão entender por que o marketing de turismo brasileiro virou série da Netflix antes da Netflix perceber.
A Aviva, dona da Costa do Sauípe, do Rio Quente Resorts e do Hot Park, acabou de inaugurar 14 suítes temáticas da Turminha da Zooeira no Sol Grand Premium, o hotel que foi completamente reformado e reaberto em janeiro de 2025. As suítes têm cerca de 41 metros quadrados, acomodam até quatro pessoas, podem ser conjugadas para famílias maiores, e a tematização começa já no corredor, passa pelo quarto e desce até o banheiro com referências ao fundo do mar. A Turminha, por quem não conhece, são seis personagens animados inspirados na fauna brasileira, com canal no YouTube desde o Dia das Crianças de 2024, 320 mil inscritos e 33 milhões de visualizações.



O digital reagiu com exatamente o entusiasmo esperado: famílias com crianças pequenas compartilhando a notícia como se fosse ingresso para o Carnaval, perfis de maternidade em êxtase coletivo, e alguns pais sem filhos perguntando nos comentários se a suíte vem com fone de ouvido incluso. A arquiteta Monique Junkes, responsável pelo projeto, explicou em entrevista que o objetivo era criar um ambiente onde a criança se sentisse parte da história sem que os adultos perdessem o momento de descanso. Ambicioso. Muito ambicioso.
A leitura da Kátia é a seguinte: a Aviva não inaugurou um quarto temático, inaugurou uma estratégia de fidelização que começa no YouTube, passa pela hospedagem e já tem data marcada para chegar ao Hot Park Costa do Sauípe em 2027. Quando uma empresa transforma o personagem em animação, o quarto de hotel e o parque aquático num ecossistema só, ela parou de vender viagem e começou a vender universo, e isso é um movimento que qualquer executivo do mercado deveria estar anotando agora.
No fim das contas, a pergunta que fica não é se a ideia funciona, porque funciona demais. A pergunta é quem vai chegar em 2027 ao Hot Park com uma criança de quatro anos que já conhece a Zira, a Léia e a Marina de cor e salteado, e vai precisar de tudo aquilo. Spoiler: vai ser todo mundo. E a Aviva já sabe disso há mais tempo do que está disposta a admitir.