Menu
Kátia Flávia
Kátia Flávia

Como funciona o mercado secundário de relógios de luxo? Renan Bastos responde às principais dúvidas sobre um setor que movimenta bilhões nos Estados Unidos e no Brasil

Do funcionamento das listas de espera à valorização de modelos como Rolex e Patek Philippe, especialista explica por que o mercado secundário se tornou uma das áreas mais relevantes da alta relojoaria global

Kátia Flávia

01/06/2026 9h07

De Rolex a Patek Philippe, a busca por relógios escassos transformou o mercado secundário em uma potência global. Entenda os bastidores desse segmento com Renan Bastos.

De Rolex a Patek Philippe, a busca por relógios escassos transformou o mercado secundário em uma potência global. Entenda os bastidores desse segmento com Renan Bastos.

O mercado secundário de relógios de luxo deixou de ser um nicho restrito a colecionadores experientes e passou a ocupar uma posição de destaque dentro da indústria global. Impulsionado pela crescente demanda por modelos escassos, pela digitalização das negociações e pelo aumento da liquidez internacional, o setor movimenta bilhões de dólares anualmente e conecta compradores e vendedores em diferentes continentes.

Para entender melhor como esse mercado funciona, conversamos com Renan Bastos, profissional que acompanha de perto a evolução da alta relojoaria nos Estados Unidos (EUA), no Brasil e em outros mercados internacionais.

O que é exatamente o mercado secundário de relógios de luxo?

Renan Bastos: O mercado secundário é onde relógios são negociados fora da rede oficial das marcas. Isso inclui peças seminovas, relógios nunca usados que já saíram da boutique e modelos raros que muitas vezes não estão mais disponíveis nos canais tradicionais de venda.

Em muitos casos, o mercado secundário é a única forma de adquirir determinadas referências sem enfrentar longas listas de espera.

Qual a diferença entre comprar em uma boutique e comprar no mercado secundário?

Renan Bastos: Comprar em uma boutique significa adquirir o relógio diretamente da marca ou de um revendedor autorizado. Já o mercado secundário é formado por dealers, lojas especializadas e empresas independentes que comercializam relógios originais fora da rede oficial.

A principal diferença não está apenas no local da compra, mas no acesso ao produto. Muitas pessoas acreditam que basta ter dinheiro para comprar qualquer relógio, mas algumas marcas trabalham com listas de espera e relacionamento de longo prazo.

Imagine alguém que deseja um Patek Philippe Nautilus. Mesmo tendo recursos para comprá-lo, essa pessoa pode não conseguir adquirir a peça diretamente na boutique se não tiver histórico de relacionamento com a marca.

Nesse cenário, o mercado secundário surge como uma alternativa para quem busca acesso imediato.

Dependendo da referência, o relógio pode ser negociado acima do preço de tabela devido à alta demanda. Em outros casos, determinados modelos podem ser encontrados por valores inferiores aos praticados no varejo.

No final, tudo depende da relação entre oferta e demanda. O mercado secundário oferece algo que muitas vezes o canal tradicional não consegue oferecer: disponibilidade imediata.

Por que alguns relógios usados custam mais caro do que novos?

Renan Bastos: O preço nem sempre está relacionado à idade da peça, mas à sua disponibilidade.

Existem relógios cuja demanda é tão alta que o comprador prefere pagar um valor adicional para ter acesso imediato, em vez de esperar anos por uma oportunidade de compra na boutique.

Quando a procura supera a oferta, o mercado secundário costuma refletir essa diferença.

O mercado secundário é seguro?

Renan Bastos: O mercado secundário pode ser muito seguro, mas o comprador precisa ter atenção principalmente a quem está vendendo.

Eu costumo dizer que muitas vezes é mais importante comprar o dealer do que comprar o relógio.

Uma oferta muito abaixo do mercado pode parecer uma grande oportunidade, mas também pode esconder problemas que o comprador nem sempre consegue identificar de imediato.

Existem casos em que o relógio é original, mas documentos, cartões ou informações relacionadas ao histórico da peça podem ter sido alterados. Um watchmaker pode confirmar a autenticidade do relógio, mas nem sempre consegue validar todo o histórico comercial daquele produto.

Por isso, é importante negociar com empresas sérias, que tenham reputação construída ao longo do tempo, estrutura física, histórico de mercado e credibilidade para preservar.

No mercado de luxo, tentar economizar a qualquer custo pode acabar saindo muito mais caro no futuro.

Quais marcas possuem maior liquidez atualmente?

Renan Bastos: Rolex continua sendo uma das principais referências em liquidez global. Patek Philippe e Audemars Piguet também possuem modelos extremamente desejados e negociados em diversos mercados internacionais.

Mas a liquidez depende muito mais da referência específica do que apenas da marca.

Os relógios podem ser considerados investimento?

Renan Bastos: Nem todo relógio deve ser tratado como investimento. Na verdade, a maioria dos relógios produzidos atualmente não foi criada com esse objetivo.

Mas existem determinadas referências, produzidas por marcas específicas, que historicamente apresentaram forte retenção de valor e, em alguns casos, valorização ao longo do tempo.

O erro é acreditar que qualquer relógio de luxo vai se valorizar automaticamente. Esse é um mercado que exige conhecimento, estudo e seleção criteriosa das peças.

Por que os Estados Unidos são tão importantes para esse mercado?

Renan Bastos: Os Estados Unidos possuem uma das estruturas mais desenvolvidas do mundo para o mercado secundário. Existe uma enorme concentração de compradores, colecionadores, dealers e empresas especializadas.

Além disso, grande parte da liquidez global do setor passa pelos Estados Unidos, tornando o país uma das principais referências para preços, tendências e movimentação de mercado.

Miami ganhou destaque nos últimos anos. O que explica esse movimento?

Renan Bastos: Miami se tornou um ponto de conexão natural entre América Latina, Estados Unidos e mercados globais.

A cidade atrai empresários, investidores, atletas, influenciadores e consumidores de alta renda de diversas partes do mundo. Esse fluxo ajudou a fortalecer todo o ecossistema de luxo e contribuiu para transformar Miami em um dos centros mais relevantes da relojoaria contemporânea.

Como a tecnologia está impactando esse mercado?

Renan Bastos: A maior transformação trazida pela tecnologia foi o acesso à informação.

Antigamente, poucas pessoas conseguiam saber com precisão quanto valia determinado relógio. Hoje, em poucos minutos, qualquer comprador consegue pesquisar preços em diferentes mercados e comparar oportunidades ao redor do mundo.

A informação se tornou muito mais acessível. Isso permite que o consumidor tome decisões mais conscientes e entenda melhor se está fazendo um bom negócio ou não.

A tecnologia, a internet e a inteligência artificial estão tornando o mercado mais transparente. Com o tempo, isso tende a reduzir o espaço para operações que dependiam da falta de informação dos compradores.

Como você enxerga o futuro do mercado secundário de relógios de luxo?

Renan Bastos: Eu acredito que o futuro do mercado é extremamente positivo.

Se observarmos o crescimento do interesse por relógios de luxo desde a pandemia, veremos uma expansão significativa do número de pessoas entrando nesse universo.

Ao mesmo tempo, vivemos em um mundo cada vez mais dominado por tecnologia, automação e produção em larga escala. E isso cria um efeito interessante: tudo aquilo que continua dependendo de habilidade humana, tempo e artesanato tende a se tornar mais valorizado.

Existem relógios que exigem centenas ou até milhares de horas de trabalho para serem produzidos. Isso é algo que vai muito além de simplesmente mostrar as horas.

Para muitas pessoas, um relógio representa arte, história e legado.

Em um cenário onde a tecnologia torna muitos produtos mais abundantes, itens verdadeiramente escassos tendem a ganhar relevância. É o mesmo princípio que ajuda a explicar a valorização de ativos como imóveis, ouro e determinadas referências da alta relojoaria.

Obviamente, nem todo relógio deve ser visto como investimento. Mas quando observamos marcas e modelos que possuem forte demanda global e liquidez consistente, percebemos que esse mercado continua atraindo cada vez mais atenção.

Por isso, acredito que o mercado secundário de relógios de luxo continuará crescendo nos próximos anos, impulsionado tanto pelo interesse dos colecionadores quanto pela busca por ativos escassos e desejados em escala global.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado