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Kátia Flávia
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Climão eterno: Temer diz que Dilma nunca mais falou com ele após impeachment

Ex-presidente afirmou ao Canal UOL que respeita Dilma Rousseff, relembrou reação dela a elogio sobre honestidade, falou em tentativa de golpe no 8 de Janeiro e elogiou Alexandre de Moraes e o STF

Kátia Flávia

07/07/2026 11h03

Michel Temer disse que Dilma Rousseff nunca mais falou com ele após o impeachment

Michel Temer disse que Dilma Rousseff nunca mais falou com ele após o impeachment

Michel Temer voltou a falar sobre Dilma Rousseff e disse que a ex-presidente nunca mais falou com ele desde o impeachment. Em entrevista ao programa Frente a Frente, do Canal UOL, o emedebista afirmou que respeita Dilma institucionalmente, mas relembrou que nem mesmo um elogio público à honestidade dela foi suficiente para reabrir qualquer canal entre os dois.

Eu tinha finalmente saído do chão da sala e promovido os carregadores internacionais a uma pilha provisória de “resolver depois”, quando Temer apareceu na minha tela com aquela voz de ata notarial contando fofoca de República. Parei com uma meia de compressão na mão, porque se tem uma coisa que eu respeito é ex-presidente falando de climão como se estivesse lendo cláusula de contrato. Minha filha, Brasília não supera nem impeachment, nem elogio, nem silêncio no WhatsApp.

Ex-presidente afirmou que chegou a chamar Dilma de “honestíssima”, mas ela não gostou do elogio
Ex-presidente afirmou que chegou a chamar Dilma de “honestíssima”, mas ela não gostou do elogio

Temer contou que, com o passar dos anos, se sente mais à vontade para falar sobre o afastamento de Dilma. Segundo ele, no discurso de posse interina, chegou a pedir aplausos e declarou respeito institucional à então ex-presidente. A frase pode até ter sido protocolar, mas o pós-impeachment, pelo visto, virou aquele grupo de família em que todo mundo vê a mensagem e ninguém responde.

A parte mais venenosa veio quando Temer relembrou uma entrevista em que foi questionado sobre o caso da refinaria de Pasadena. Ele disse que Dilma era “muito honesta, honestíssima”. No dia seguinte, segundo ele, a petista soltou uma nota dizendo que não admitia ser chamada de honesta por ele. Temer então arrematou com ironia fina: prometeu não fazer mais essa “acusação”.

Eu confesso que ri, porque só em Brasília alguém transforma “honestíssima” em ofensa diplomática. É uma elite política tão acostumada ao veneno que até elogio chega com cheiro de intimação. E, nesse caso, o ressentimento é de longa duração, daqueles que não prescrevem nem com reforma da Previdência.

O ex-presidente também foi questionado sobre a acusação de ter participado de um golpe no impeachment. Para se defender, Temer comparou o episódio ao 8 de Janeiro de 2023 e disse que ali, sim, houve tentativa de golpe. Segundo ele, a intenção existiu porque os ataques foram contra prédios que abrigam os Poderes da República. O movimento, no entanto, não teria avançado porque não houve adesão das Forças Armadas.

Nesse ponto, Temer fez aquele giro típico de quem conhece o tabuleiro e sabe onde pisa. Ele separou o próprio impeachment da invasão golpista e ainda colocou o bolsonarismo no banco dos réus político, dizendo que havia desejo de ruptura institucional. Eu já vi muito ex-presidente tentar reescrever a própria biografia, mas Temer faz isso com a calma de quem passa corretivo em documento oficial.

Na mesma entrevista, ele elogiou Alexandre de Moraes e o Supremo Tribunal Federal. Temer afirmou que decisões da Corte ajudaram a garantir eleições e fortalecer a democracia. Também disse que é possível discutir o mérito das decisões do STF, mas não suas competências constitucionais.

 Temer também falou sobre 8 de Janeiro, Alexandre de Moraes e o papel do STF na democracia brasileira
Temer também falou sobre 8 de Janeiro, Alexandre de Moraes e o papel do STF na democracia brasileira

Olha, eu não sou ingênua. Quando Temer elogia Moraes, critica tentativa de golpe e ainda conta que Dilma nunca mais falou com ele, não é entrevista, é um jantar servido em três pratos: entrada de mágoa, prato principal de 8 de Janeiro e sobremesa de STF. E tudo com aquela elegância sombria de quem parece estar sempre a dois passos de citar um artigo da Constituição no ouvido de alguém.

A frase sobre Dilma é a que fica rodando. Porque política brasileira é isso: governos caem, alianças mudam, ministros viram heróis ou vilões, mas o climão pessoal continua ali, sentado na sala, esperando alguém perguntar se já passou. Pelo visto, entre Michel Temer e Dilma Rousseff, não passou. E se depender do silêncio dela, também não vai passar tão cedo.

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