Eu tava com a bolsa no ombro, saindo pra academia, quando o telefone tocou aqui em casa. Do outro lado, uma fonte minha que vive entre fogão e sala de jantar de gente fina me jogou o babado: chef brasileira respondendo, com todas as letras, àquela reclamação que vira meme toda semana. Larguei a bolsa na cadeira, sentei de novo e mandei contar tudo.
A moça é a Cândida Batista, que integra a equipe de uma cozinha selecionada pelo Guia Michelin em Viena, na Áustria. Ela resolveu encarar de peito aberto os comentários clássicos de quem sai desses restaurantes resmungando: “saí com fome”, “porção pequena demais”, “paguei caro pra comer pouco”. E jura que a crítica mais engraçada que já leu foi a de um cliente afirmando que comida de Michelin “não enchia barriga”.

Pelo que me contaram, o que a Cândida defende é que nesses lugares ninguém olha pra um prato sozinho, existe um percurso inteiro. Antes do principal chegar já vêm entradinhas, pães, canapés e umas surpresas pra abrir o apetite, e no fim ainda aterrissam os docinhos pra fechar a noite. A proposta dela não tem nada a ver com a lógica de churrascaria ou rodízio, onde a pessoa come até não conseguir mais levantar da cadeira.

E olha, esse assunto rende barraco nos comentários. De um lado, a turma que valoriza a tal da experiência completa, a narrativa, a memória afetiva, a história que o chef quer contar no prato. Do outro, o batalhão que entra esperando rodízio de carne e sai bufando que pagou caro pra comer três coisinhas bonitas. A Cândida ainda solta que tenta levar um pedacinho do Brasil pra Europa nos sabores e nas histórias que põe na comida, pra você sair de lá com lembrança, não com indigestão.
Pois eu fico do lado da chef, viu. Quem quer encher a pança até o último botão da calça tem rodízio na esquina, baratinho e honesto. Restaurante estrelado é pra sair com a memória cheia e a conversa rendendo no táxi de volta. Se bateu uma fominha na saída, meu amor, encosta num pastel ali na esquina e pronto, ninguém precisa ficar sabendo.