Eu estava saindo da academia no Leblon quando recebi o áudio que já circulava entre gente da imprensa. César Calejon, jornalista, escritor e mestre em Mudança Social e Participação Política pela USP, gravou um vídeo comunicando que pediu demissão do Instituto Conhecimento Liberta. Fez questão de frisar, palavra por palavra, que a decisão foi dele, não da empresa.
Calejon entrou no ICL em novembro de 2022, a convite pessoal, e ao longo desses quase quatro anos ajudou a consolidar o instituto como uma das maiores potências da mídia independente no Brasil. Antes disso já era nome estabelecido, com passagens por CartaCapital, revista Trip e Brasil 247, e autor de livros como “A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI” e “Tempestade Perfeita”. No vídeo, ele agradeceu o período, disse que “a vida tem fases” e garantiu que vai continuar o trabalho de forma independente, especialmente agora que o Brasil entra em período eleitoral.
Aqui é onde o bastidor fica pesado de verdade. Calejon não sai sozinho. Depois da saída de Leandro Demori, o ICL já perdeu nomes como Adriana Ferreira, Nina Lemos, Alice Maciel, Pedro Barciela, Eduardo Souza, Thiago Barcellos e Juliana Zaroni. É gente suficiente para o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo entrar em campo, acompanhando o caso e pedindo reunião com a direção para avaliar se a onda de saídas configura demissão em massa. E o timing incomoda ainda mais quando se soma a outra informação que veio à tona: o fundador Eduardo Moreira confirmou ter antecipado uma distribuição de cerca de R$ 43,6 milhões em lucros, dos quais R$ 25,1 milhões ficaram com ele mesmo e R$ 16,7 milhões com Rafael Donatiello, justificando a manobra como forma de evitar tributação sobre dividendos, exatamente no período em que a redação era reestruturada.
Eu não vou fingir que isso é só uma “fase”, como disse Calejon com a educação de quem sabe que ainda vai precisar de boas relações no mercado. Quando um nome do peso dele sai de coração partido, na mesma semana em que o dono confirma ter embolsado milhões antes de cortar equipe, a conta não fecha sozinha. Fica a pergunta pro Instituto Conhecimento Liberta: liberta pra quem, exatamente.