Eu estava no ateliê aqui em Milão, mega hair no meio do processo, aquela hora em que você não pode mexer a cabeça, quando minha assessora entrou pela porta com o celular na mão e a expressão de quem acabou de ver o Papa de biquíni. Céline Dion confirmando shows em Paris. Eu quase derrubei o uísque energético, e quem me conhece sabe que isso é o máximo que eu demonstro de emoção em público.
O fato, pra quem não acompanhou: Céline foi diagnosticada com a síndrome da pessoa rígida, uma condição neurológica que afeta o controle muscular e que praticamente ninguém conhecia antes dela colocar o nome na conversa. Ela cancelou turnês, sumiu dos palcos, apareceu em documentário mostrando crises reais, sem glamour, sem filtro. Agora anuncia apresentações em Paris, com repertório e rotina adaptados ao que o corpo permite. A mulher não fingiu que estava bem, e isso, nesse meio, é quase revolucionário.
No digital, o anúncio explodiu com uma velocidade que artista em início de carreira não consegue comprar. Os fãs históricos foram ao delírio nos comentários, os perfis de cultura pop repostaram tudo, e até gente que jurava não ligar para diva pop dos anos noventa apareceu curtindo e salvando. O interessante foi observar o movimento das plataformas de streaming, porque o catálogo dela subiu nos charts antes mesmo de qualquer show acontecer, o que diz muito sobre o tamanho do buraco que ela deixou.
Minha leitura, sem papas na língua: expor doença rara num mercado que descarta artista na primeira fraqueza é uma decisão arriscada, e ela tomou essa decisão de forma consistente, por anos, sem recuar. Tem uma inteligência de carreira muito específica nisso, porque ela transformou o afastamento em narrativa sem precisar de relações públicas trabalhando vinte e quatro horas.
O público que acompanhou o tratamento junto com ela agora vai ao show como quem honra um compromisso afetivo.
E olha, Paris foi escolhida com critério, não foi acaso: é a cidade que ela já provou que domina, o público que já sabe aplaudir de pé antes de ela abrir a boca. Começar o comeback onde você já sabe o resultado do jogo é uma jogada velha como o showbiz, e Céline Dion sempre soube jogar.