Eu tava chegando no Cosme Velho, pronta pra fazer pé, mão e falar mal de elenco de reality, quando toca a chamada de vídeo no meu celular verde-água. Era um amigo de Belo Horizonte, daqueles que sabem mais de cartório do que de próprio signo, berrando: “Kátia, Minas Gerais tá bombando de carteira de identidade nova, dá um jeito de explicar isso pro povo”. Botei o roupão, sentei na varanda com vista pro Cristo Redentor e liguei o modo coluna, porque fofoqueira de quinta também sabe falar de burocracia quando o babado rende.
O resumo da ópera é o seguinte: em três anos, 47 cartórios de Registro Civil das Pessoas Naturais espalhados por Minas Gerais já emitiram mais de 100 mil Carteiras de Identidade Nacional (CIN), essa CIN fresquinha que unifica o documento no país inteiro. A graça é que esses cartórios foram habilitados pela Polícia Civil de Minas Gerais e viraram uma alternativa rápida às unidades de atendimento do governo, tipo UAI e postos de identificação. Em alguns lugares, como Congonhas, já tem cartório beirando 11 mil documentos entregues, com fila grande e funcionário fazendo hora extra na base do café forte.

E não é só número frio em planilha, tem narrativa. A juíza auxiliar da Corregedoria, Simone Saraiva de Abreu Abras, foi lá dizer que a ideia nasceu de um acordo entre o sindicato dos oficiais de registro e a Polícia Civil de Minas Gerais, aprovado pela cúpula da Justiça mineira em 2023, tudo bonitinho no papel. Na prática, isso quer dizer que o cidadão do interior não precisa cruzar meio estado pra conseguir um documento simples, porque o cartório da esquina, aquele onde a gente reconhece firma, agora também resolve a Carteira de Identidade Nacional. Capilaridade é o nome chique, mas eu chamo de “não fazer o povo sofrer em fila de madrugada”.

A cereja do bolo, claro, são as histórias humanas, porque número não chora. Tem a Isabela, 15 anos, jogadora de vôlei, que correu pro cartório do Barreiro pra tirar a Carteira de Identidade Nacional e poder disputar torneio pelo Minas Tênis Clube, já que a carteira infantil dela não dava mais conta da burocracia esportiva. Tem também a Regina Célia, de Congonhas, que não conseguia nem sair de casa por dor no joelho e obesidade, e recebeu visita do cartório na sala de estar, com coleta de digitais, foto e tudo, pra não ficar sem benefício e sem acesso a serviço básico. É o RG chegando no sofá enquanto a gente ainda sofre pra marcar consulta no aplicativo do plano.
Pra completar o pacote, o povo dos cartórios lembra que a primeira Carteira de Identidade Nacional é de graça, a segunda via passa dos cem reais e ainda tem taxa de conveniência, porque o capitalismo nunca perde a piada. O documento vale pro país inteiro, conversa com Justiça Eleitoral, Receita Federal e banco, e o sonho é ter tudo interligado, bonitinho, como se a vida do brasileiro fosse simples. Do alto do meu Cosme Velho, olhando esse corre mineiro, meu veredito é um só: quando o cartório começa a entregar documento em casa, é sinal de que o Brasil anda, mesmo que seja mancando e com o RG novo ainda cheirando a tinta.