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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Cartão anulado após pedido de Trump coloca Fifa no centro de crise

Cartão vermelho de Folarin Balogun foi anulado após pedido do presidente dos Estados Unidos, Bélgica contesta decisão e árbitro brasileiro Raphael Claus vira alvo de ataques.

Kátia Flávia

06/07/2026 14h45

Donald Trump admitiu que pediu à Fifa revisão do cartão vermelho de Balogun

Donald Trump admitiu que pediu à Fifa revisão do cartão vermelho de Balogun

Donald Trump admitiu que pediu à Fifa a revisão do cartão vermelho aplicado ao atacante Folarin Balogun, dos Estados Unidos, na partida contra a Bósnia-Herzegovina pela Copa do Mundo. A decisão foi anulada, o jogador ficou liberado para enfrentar a Bélgica, e o caso abriu uma crise pesada sobre possível interferência política no torneio.

Eu tinha acabado de voltar para o hotel em Nova York, larguei as sacolas do shopping no canto do quarto e fui conferir, pela terceira vez, se o passaporte estava mesmo dentro da bolsa de mão antes do voo. Foi aí que apareceu Trump dizendo, sem piscar, que ligou para a Fifa por causa de um cartão vermelho. Minha filha, eu sentei na beira da cama com o carregador na mão, porque quando presidente resolve brincar de VAR internacional, a Copa do Mundo deixa de ser torneio e vira reunião de condomínio com troféu dourado.

 Raphael Claus expulsou o atacante dos Estados Unidos após revisão no VAR
Raphael Claus expulsou o atacante dos Estados Unidos após revisão no VAR

O caso envolve o cartão vermelho dado por Raphael Claus a Balogun, aos 18 minutos do segundo tempo da partida contra a Bósnia-Herzegovina. O árbitro brasileiro expulsou o atacante após revisão no VAR por um pisão no tornozelo de Muharemovic. Depois, a Fifa anulou a punição.

Questionado no Salão Oval, Trump confirmou que pediu a revisão, mas negou ter dado ordem à entidade. “Tudo o que fiz foi pedir uma revisão, porque não achei que fosse falta. Eu não disse à Fifa o que fazer. O comitê tomou a decisão certa”, afirmou.

Ah, claro. Só um telefonema inocente do presidente do país-sede da Copa do Mundo para a entidade que organiza a Copa do Mundo. Coisa simples. Quase como mandar mensagem para o síndico perguntando se aquela multa do seu carro “não poderia ser revista com carinho”.

Trump ainda atacou Raphael Claus e chamou o árbitro brasileiro de “horrível”. Pior: insinuou que havia algo suspeito no passado do juiz. “Esse árbitro é um pouco suspeito. Se você verificar o passado dele…”, disse, sem apresentar prova concreta na fala divulgada.

Aí a história deixa de ser apenas pressão e passa a entrar no terreno perigoso da intimidação pública. Um chefe de Estado questionando árbitro, celebrando reversão de punição e colocando a Fifa contra a parede enquanto sua seleção disputa vaga nas quartas não é detalhe de bastidor. É um elefante de terno entrando na sala do VAR.

Gianni Infantino confirmou que recebeu ligação de Trump, mas tentou blindar a entidade. O presidente da Fifa afirmou que conversa regularmente com o líder americano sobre assuntos da Copa do Mundo e disse que os órgãos judiciais da entidade são “independentes e autônomos”. Segundo ele, a independência dessas instâncias é essencial para a credibilidade do futebol.

A Bélgica, adversária dos Estados Unidos, não engoliu a explicação. A federação belga afirmou que não recebeu a decisão nem qualquer justificativa da Fifa e anunciou que vai contestar a elegibilidade de Balogun. Os belgas alegam que o regulamento prevê suspensão automática para cartão vermelho e que a liberação do jogador contraria normas disciplinares da própria competição.

E é aí que mora o escândalo. Se todo cartão vermelho gera suspensão automática, por que justamente esse virou caso especial depois de uma ligação de Trump? Se a regra vale para todo mundo, por que a Bélgica precisou correr atrás de explicação como quem pede segunda via de boleto?

A União Europeia e a Uefa também criticaram a Fifa pela anulação após o pedido de Trump. O técnico dos Estados Unidos, Mauricio Pochettino, comemorou a decisão e disse que a expulsão havia sido injusta. Mas a comemoração americana só aumentou o barulho: para os rivais, a sensação é de que o tapetão ganhou sotaque presidencial.

Bélgica contesta liberação do jogador e cobra explicações da Fifa
Bélgica contesta liberação do jogador e cobra explicações da Fifa

Kátia aqui não é ingênua, meus amores. Futebol sempre teve bastidor, pressão, dirigente cochichando e cartola com mais influência que bom senso. Mas quando o presidente dos Estados Unidos admite que entrou no circuito para revisar uma decisão disciplinar durante a Copa do Mundo, a pergunta deixa de ser se o cartão foi justo. A pergunta passa a ser quem manda no jogo.

E se a Fifa queria vender a Copa do Mundo de 2026 como espetáculo global impecável, ganhou uma dor de cabeça do tamanho do Salão Oval. Porque uma coisa é discutir VAR. Outra é discutir se o VAR atende telefone da Casa Branca.

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