Donald Trump admitiu que pediu à Fifa a revisão do cartão vermelho aplicado ao atacante Folarin Balogun, dos Estados Unidos, na partida contra a Bósnia-Herzegovina pela Copa do Mundo. A decisão foi anulada, o jogador ficou liberado para enfrentar a Bélgica, e o caso abriu uma crise pesada sobre possível interferência política no torneio.
Eu tinha acabado de voltar para o hotel em Nova York, larguei as sacolas do shopping no canto do quarto e fui conferir, pela terceira vez, se o passaporte estava mesmo dentro da bolsa de mão antes do voo. Foi aí que apareceu Trump dizendo, sem piscar, que ligou para a Fifa por causa de um cartão vermelho. Minha filha, eu sentei na beira da cama com o carregador na mão, porque quando presidente resolve brincar de VAR internacional, a Copa do Mundo deixa de ser torneio e vira reunião de condomínio com troféu dourado.

O caso envolve o cartão vermelho dado por Raphael Claus a Balogun, aos 18 minutos do segundo tempo da partida contra a Bósnia-Herzegovina. O árbitro brasileiro expulsou o atacante após revisão no VAR por um pisão no tornozelo de Muharemovic. Depois, a Fifa anulou a punição.
Questionado no Salão Oval, Trump confirmou que pediu a revisão, mas negou ter dado ordem à entidade. “Tudo o que fiz foi pedir uma revisão, porque não achei que fosse falta. Eu não disse à Fifa o que fazer. O comitê tomou a decisão certa”, afirmou.
Ah, claro. Só um telefonema inocente do presidente do país-sede da Copa do Mundo para a entidade que organiza a Copa do Mundo. Coisa simples. Quase como mandar mensagem para o síndico perguntando se aquela multa do seu carro “não poderia ser revista com carinho”.
Trump ainda atacou Raphael Claus e chamou o árbitro brasileiro de “horrível”. Pior: insinuou que havia algo suspeito no passado do juiz. “Esse árbitro é um pouco suspeito. Se você verificar o passado dele…”, disse, sem apresentar prova concreta na fala divulgada.
Aí a história deixa de ser apenas pressão e passa a entrar no terreno perigoso da intimidação pública. Um chefe de Estado questionando árbitro, celebrando reversão de punição e colocando a Fifa contra a parede enquanto sua seleção disputa vaga nas quartas não é detalhe de bastidor. É um elefante de terno entrando na sala do VAR.
Gianni Infantino confirmou que recebeu ligação de Trump, mas tentou blindar a entidade. O presidente da Fifa afirmou que conversa regularmente com o líder americano sobre assuntos da Copa do Mundo e disse que os órgãos judiciais da entidade são “independentes e autônomos”. Segundo ele, a independência dessas instâncias é essencial para a credibilidade do futebol.
A Bélgica, adversária dos Estados Unidos, não engoliu a explicação. A federação belga afirmou que não recebeu a decisão nem qualquer justificativa da Fifa e anunciou que vai contestar a elegibilidade de Balogun. Os belgas alegam que o regulamento prevê suspensão automática para cartão vermelho e que a liberação do jogador contraria normas disciplinares da própria competição.
E é aí que mora o escândalo. Se todo cartão vermelho gera suspensão automática, por que justamente esse virou caso especial depois de uma ligação de Trump? Se a regra vale para todo mundo, por que a Bélgica precisou correr atrás de explicação como quem pede segunda via de boleto?
A União Europeia e a Uefa também criticaram a Fifa pela anulação após o pedido de Trump. O técnico dos Estados Unidos, Mauricio Pochettino, comemorou a decisão e disse que a expulsão havia sido injusta. Mas a comemoração americana só aumentou o barulho: para os rivais, a sensação é de que o tapetão ganhou sotaque presidencial.

Kátia aqui não é ingênua, meus amores. Futebol sempre teve bastidor, pressão, dirigente cochichando e cartola com mais influência que bom senso. Mas quando o presidente dos Estados Unidos admite que entrou no circuito para revisar uma decisão disciplinar durante a Copa do Mundo, a pergunta deixa de ser se o cartão foi justo. A pergunta passa a ser quem manda no jogo.
E se a Fifa queria vender a Copa do Mundo de 2026 como espetáculo global impecável, ganhou uma dor de cabeça do tamanho do Salão Oval. Porque uma coisa é discutir VAR. Outra é discutir se o VAR atende telefone da Casa Branca.