Chamada de vídeo entrando a trinta mil pés de altitude, wifi de bordo cobrado em euro, eu de máscara de cetim levantada na testa. Atendi, olhei a tela e desisti do cochilo, porque o assunto era design autoral virando produto industrial, que é o meu tipo favorito de casamento de interesse.
Carol Gay levou a linguagem dela para o universo dos revestimentos em parceria com a Decortiles, marca brasileira de revestimento cerâmico do segmento premium. A moça é cocriadora da empresa desde 2024 e agora assina a Coleção Carol Gay, que traduz o que ela já fazia em vaso, móvel e luminária: forma orgânica, referência urbana, volumetria, cor, textura e experimentação de material. Arquiteta formada no Mackenzie, paulistana, com a virada de chave num workshop de 1999 comandado por Fernando e Humberto Campana. Currículo de gente que não chegou ontem.

E ela explicou direitinho por que isso é outro jogo. Segundo Carol, quando cria um vaso ou um móvel, pensa num objeto que ocupa o ambiente, e no revestimento a lógica muda porque a peça passa a construir o próprio ambiente. Forma, relevo, cor e luz deixam de estar num objeto só e começam a se repetir, se expandir e mexer com a percepção da parede, da fachada e até da piscina. Traduzindo para o meu dialeto de colunista: a assinatura autoral saiu da mesinha de canto e tomou a casa inteira.
A coleção vem com as séries Bola e Traço, e as duas são personagem. Bola tem forma esférica, cor saturada e composição livre, puxando o vaso Bola em vidro soprado, ícone da designer, com conversa aberta com Tarsila do Amaral, Yayoi Kusama e Athos Bulcão. Traço olha para a cidade e transforma linha de asfalto, bueiro e boca de lobo em relevo gráfico e tátil. Gente, ela pegou o chão que todo mundo pisa sem olhar e botou na fachada de projeto de luxo. Isso é golpe de mestre, e eu bato palma de pé.



Do lado corporativo, Eduardo Boselo, coordenador de design e portfólio da Decortiles, disse que a parceria faz o revestimento deixar de ser apenas base para participar da narrativa do espaço, unindo indústria, técnica e assinatura autoral. E o currículo dela sustenta a aposta: Designer do Ano no Robb Report Awards Brasil em 2023, vitória no EDIDA Awards Brasil na categoria luminária em 2024, cadeira no júri do prêmio de arquitetura da Revista Projeto em 2025 e vaga em 2026 na exposição dos 25 anos do espaço Talents, na feira Ambiente, em Frankfurt. Marca que contrata talento premiado não está comprando desenho, está comprando reputação. Anotem o nome, porque essa coleção vai aparecer em parede de gente muito rica.