Noventa minutos de academia no Leblon e o assunto que tomou conta do meu caminho de volta para o Cosme Velho foi a Ministra Cármen Lúcia, que subiu num palco em Porto Alegre ( lindíssima!) e disse em voz alta o que muita gente dentro da Justiça Eleitoral já sabe mas prefere não formalizar. Na aula magna da UFRGS, a ministra do STF defendeu a criação de uma brigada eleitoral para proteger candidatas mulheres durante a campanha de 2026, um mecanismo de resposta rápida para ameaças, intimidação e violência política de gênero.
A referência que Cármen Lúcia usou foi a Patrulha Maria da Penha, acionada em situações de risco para tentar evitar que episódios de violência tenham desfechos irreversíveis. A lógica é a mesma: atuar antes do pior acontecer, ter estrutura pronta para responder quando uma candidata for atacada, perseguida ou intimidada por estar ocupando espaço na política. A proposta ainda não tem formato de norma, mas o discurso ganhou repercussão imediata porque junta eleições, segurança de mulheres e atuação do STF numa frase só.



O pano de fundo importa: violência política contra mulheres é crime desde 2021, com lei específica que proíbe ataques no exercício de direitos políticos. O TSE já aprovou resolução vedando conteúdo de violência política de gênero para 2026. Mesmo assim, os ataques seguem acontecendo nas redes em volume crescente, com ofensas de caráter sexista que a própria ministra chamou de “ódia”, uma palavra que ela cunhou para marcar a diferença entre ódio genérico e misoginia direcionada.
A fala ganhou peso porque Cármen Lúcia conduziu parte da preparação institucional do TSE para 2026, antes de Nunes Marques ser eleito para presidir o tribunal nas eleições gerais. O tema, portanto, não sai do radar com a mudança de comando. A pergunta que fica é se a brigada vai sair do discurso da aula magna e virar protocolo real, com órgãos responsáveis, canais de denúncia e resposta que chegue antes da ameaça virar manchete.
Candidata que precisa de brigada para fazer campanha em 2026 é retrato de um país que aprovou a lei, comemorou a lei e voltou a dormir. Cármen Lúcia teve razão em levantar o tema, e quem tiver coragem de transformar isso em estrutura real vai merecer mais do que aplauso de plateia.