Eu estava almoçando perto do Museu do Fado, encostada numa daquelas muralhas de Alfama, quando parei numa frase de Waleska Melo: “O Carlinhos sempre me incentivou a desfilar.” Pronto. Quem me conhece sabe que gratidão me pega. Pode trazer a fofoca, mas gente que não esquece quem abriu uma porta tem meu respeito.
Waleska Melo, sergipana de Aracaju e participante do Rancho do Maia, vai estrear no Carnaval de São Paulo como musa do Império de Casa Verde em 2027. Ela já havia recebido sondagens de outras escolas, mas recusou porque não se considerava preparada para assumir a responsabilidade. Desta vez, aceitou o convite que chegou por intermédio de Kaio Cezar.

E tem um detalhe delicioso nessa história: Carlinhos Maia ainda não sabe. Waleska conta que ele falava havia tempos que ela precisava desfilar e que deveria fazer isso em uma grande escola. O incentivo ganhou um significado especial porque o próprio Carlinhos já foi homenageado pelo Império de Casa Verde.
“Foi um divisor de águas na minha vida”, diz Waleska sobre o Rancho do Maia. Ela atribui ao projeto a visibilidade e parte das oportunidades que surgiram depois, mas não vende a história como conto de fadas: diz que receber uma chance não basta e que é preciso estar preparada para aproveitá-la.
É justamente aí que essa menina me ganhou. Gratidão não diminui conquista própria. Waleska agradece a Carlinhos sem fingir que chegou até aqui sozinha, mas também conta o que fez depois da oportunidade: trabalhou, estudou, abraçou novos projetos e decidiu construir uma trajetória própria.
Agora a preparação ficou séria. Waleska, que afirma manter rotina de exercícios há mais de dez anos, concilia musculação e CrossFit e vai acrescentar ensaios, aulas de samba e trabalho de resistência para chegar ao Anhembi preparada. Sem dieta maluca, segundo ela.

E tem Sergipe nessa avenida. Waleska diz que quer carregar as raízes de Aracaju para sua estreia e transformar aquele sonho de menina que assistia ao Carnaval pela televisão em realidade.
Voltei para o almoço olhando Alfama e pensando nisso. Tem gente que sobe e apaga a escada. Waleska fez questão de dizer quem a incentivou a subir. Isso, para mim, tem nome: gratidão.