Estava jantando no Porto Vecchio de Bari quando minha amiga Cláudia, que trabalha com música, me mandou mensagem dizendo que tinha chorado assistindo ao documentário do Carlinhos Brown na HBO Max. Pedi a conta, abri a plataforma e entendi na hora o que ela queria dizer.
“Carlinhos Brown em Meia Lua Inteira”, disponível desde 14 de abril, entrega uma das histórias mais bonitas que o mundo artístico brasileiro guardou a sete chaves. A música “Argila”, lançada no álbum “Alfagamabetizado” em 1996, foi composta pelo Cacique do Candeal para Helena Buarque, filha de Chico e Marieta Severo. Quem conta isso é a própria Helena, de 52 anos, mulher que nunca teve rede social, nunca buscou holofote e quebrou um silêncio público de décadas para entrar na câmera dos diretores Bianca Lenti e Belisário Franca.


Eles se encontraram no Carnaval de 1993, quando a Timbalada explodia com “Canto pro Mar” e Brown era o nome mais quente do axé. Helena foi passar a folia na Bahia e ficou 18 anos. “A gente não casou no papel. Simplesmente nos juntamos e fomos morar na Bahia”, ela conta no documentário, com a tranquilidade de quem nunca precisou de cartório para saber o que tinha. O casal viveu no Rio Vermelho, em Salvador, e teve quatro filhos: Chico Brown, Clara, que esteve na novela “Travessia” da TV Globo, Ceci, de 19 anos, e Leila, de 14.
“Argila” tem versos de uma delicadeza quase desconcertante para um artista que pintava o rosto e fazia multidão delirar no Carnaval. A letra referencia África e Brasil e promete, no refrão, que “solidão anda de muda / sei pra sempre te amarei.” Brown não estava escrevendo para o público. Estava colocando uma carta dentro de um disco para que ela encontrasse, numa época em que a fama cobrava caro e a presença em casa não era garantida. Ele mesmo confessa no documentário: “Tive filhos que nasceram enquanto eu estava em show.”
A separação veio em 2011, quando Helena voltou para o Rio. O que o documentário mostra é que o fim não quebrou nada de essencial. Marieta Severo aparece sem mágoa e resume com precisão o que poderia ser complicado: “A qualidade do amor do Carlinhos é muito apaixonante.” Trinta anos depois do Carnaval de 1993, “Argila” continua rodando. Algumas músicas não envelhecem porque foram escritas para uma pessoa de verdade, não para o algoritmo.