Caetano Veloso venceu uma ação contra a TV Alterosa, de Minas Gerais, e os apresentadores Ricardo Carlini e Éder Roberto Gomes após ser alvo de uma sequência de ofensas em um programa da emissora. A condenação prevê o pagamento de R$ 140 mil, com correção monetária e juros de 1% ao mês.
Eu estava no Cosme Velho, folheando o caderno novo e organizando os pontos que ficaram pendentes da reunião na Barra, quando li o que foi dito sobre Caetano no ar. Não é crítica, não é opinião dura, não é debate cultural. É uma sucessão de ataques que atravessou qualquer limite aceitável.

Em 2017, durante o programa “TV Verdade”, Caetano foi chamado de “pedófilo”, “estuprador” e “vagabundo” que deveria estar preso. Os apresentadores também disseram que o cantor vivia às custas da Lei Rouanet, “vampirando o povo”. As expressões foram tratadas pela Justiça como ofensas que levaram à responsabilização da emissora e dos envolvidos.
Eu fechei o caderno e fiquei olhando para a janela, porque o caso dá uma tristeza danada. Dá para discordar de artista, música, posicionamento político, roupa de palco, corte de cabelo e o que mais alguém quiser. Mas chamar uma pessoa de coisas tão graves em rede pública não é liberdade de expressão com purpurina, meu amor. É violência verbal.
Paula Lavigne também foi atingida pela baixaria. A empresária, companheira de Caetano, foi chamada de “maconheira dos quintos dos infernos”, “lixo” e “peste”. Ou seja: não bastou atacar o cantor; sobrou agressão para uma mulher que virou alvo apenas por estar ao lado dele.
Eu levantei da mesa, coloquei água para ferver e pensei que esse tipo de episódio revela uma fome estranha de humilhar gente pública. A televisão entra na casa das pessoas todos os dias. Quem está diante de uma câmera sabe o peso da própria fala e não pode transformar microfone em arma para fabricar escândalo.

A decisão estabelece os R$ 140 mil em indenização, além de correção e juros. A condenação é uma resposta clara: crítica não autoriza mentira, insulto nem acusação gravíssima jogada ao público como se fosse comentário de programa.
Eu voltei ao caderno e risquei uma frase que tinha escrito antes. No lugar, anotei outra: Caetano passou a vida inteira sendo assunto porque canta, provoca, cria e atravessa gerações. Mas ninguém deveria ter de recorrer à Justiça para provar que dignidade não é pauta de auditório.