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Kátia Flávia
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Cachaça de alambique sobe de patamar e disputa trono com o vinho

Enquanto eu tomava um espumante em Ibiza, o alambique mineiro decidiu que também merece red carpet. A 35ª Expocachaça provou que virou negócio, não boemia.

Kátia Flávia

03/08/2026 14h00

A 35ª Expocachaça reforça a transformação da cachaça de alambique em um produto premium e estratégico para o turismo e a economia.

A 35ª Expocachaça reforça a transformação da cachaça de alambique em um produto premium e estratégico para o turismo e a economia.

Gente, eu estava aqui na minha espreguiçadeira em Ibiza, sol na pele, taça na mão, quando o celular vibrou com uma chamada de vídeo urgente do meu informante em Minas Gerais. E olha, eu já ia ignorar, achei que era mais uma treta de banco, mas quando ouvi “cachaça de alambique” e R$ 30 milhões na mesma frase, larguei o drinque e sentei elegantemente para escutar o balanço. Porque, queridas, a cachaça decidiu que não quer mais ser vista como a prima pobre do bar de esquina. Ela quer cadeira na diretoria do turismo de luxo. E a 35ª Expocachaça, que acontece de 6 a 8 de agosto, no CenterMinas Expo, em Belo Horizonte, é o baile de debutante oficial dessa virada de imagem.

E o balanço trimestral do setor, porque sim, eu trato isso como balanço, é o Anuário da Cachaça 2025, do Ministério da Agricultura. Os números impressionam: 1.266 estabelecimentos elaboradores registrados, 7.223 produtos e 292,459 milhões de litros de produção declarada em todo o país. Minas Gerais aparece disparado na liderança do ranking, com 501 estabelecimentos, a verdadeira blue chip do destilado nacional, deixando São Paulo, com 179, e o Espírito Santo, com 81, brigando educadamente pelo pódio de vice. É o tipo de concentração de mercado que, em qualquer outro setor, já teria virado pauta de CVM.

E aqui entra o climão corporativo mais delicioso da semana. A cachaça resolveu se comparar ao vinho, a concorrente de sangue azul que sempre teve tapete vermelho em qualquer harmonização chique. Só que agora o repertório virou terroir, técnica de destilação, madeira de envelhecimento, amburana, bálsamo e jequitibá, além de degustação guiada. Isso é rebranding de grife, gente. É a cachaça deixando de vender volume para vender narrativa, exatamente como toda marca que quer subir de preço sem perder cliente.

José Lúcio Mendes, idealizador da feira, resumiu a estratégia de forma direta: “a feira nasceu para abrir mercado, educar o consumidor, aproximar produtores e fortalecer a reputação da cachaça”. Tradução da coluna: ele está fazendo o roadshow de IPO mais gentil que a Faria Lima já viu.

E não é pouca gente assistindo esse pregão. A organização espera 250 expositores de 18 estados, cerca de 2 mil marcas entre produtos, insumos e equipamentos, além de um público estimado em 25 mil pessoas, com previsão de movimentar R$ 30 milhões em negócios, turismo, gastronomia e serviços. Tudo isso acontece paralelamente à 19ª Brasil Bier e à 4ª Minas + Doce, com estandes de doçaria e a Cozinha Viva, dedicada às aulas show. É praticamente um Davos regional do copo, com direito a harmonização e engenhos abertos para visitação, porque agora o turista quer ver a cana sendo moída antes de decidir qual garrafa levar para casa.

Veredicto da coluna, ainda de biquíni em Ibiza. A cachaça de alambique não está mais pedindo licença para entrar na sala VIP do turismo brasileiro. Ela está redecorando a sala. Belo Horizonte, capital histórica do encontro da bebida desde 1998, colhe o dividendo de imagem. Minas Gerais segue como acionista majoritário do setor, e o vinho, bem, o vinho que se cuide. A concorrência mineira chegou destilada, envelhecida e com um ambicioso plano de expansão nacional.

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