Domingo de ressaca de Copa, eu esparramada em casa tomando litro de suco de pera para ver se o juízo voltava, sem a menor intenção de pisar na academia hoje. O plano era santo, esticar até o Leme na casa de uma amiga e emendar um almoço bem demorado em algum lugar com vista pro mar. Foi exatamente nesse momento, de chinelo e cara amassada, que o celular tocou naquele tom ofegante que já entrega fofoca grande, e a notícia caiu no meu colo antes mesmo do segundo gole.
A tal protagonista é a Bruna Mendonça, primeira trans a entrar no Miss Copa do Mundo, aquele concurso que distribui faixas de seleção por afinidade, e ela representa nada menos que a Arábia Saudita. A promessa é um show do intervalo proibidão para maiores, sempre na pausa entre o primeiro e o segundo tempo das partidas da Arábia. Enquanto a TV exibe os melhores momentos e os comentaristas tagarelam, a Bruna solta a versão picante dela nas plataformas adultas em que já embolsa cem mil por mês, com jogador famoso assinando a conta.
A pegação, segundo ela própria, está liberada. A Miss conta que mandou a ideia para alguns atletas que vivem curtindo as fotos dela e recebeu o aval geral antes de lançar de vez. O recorte que ninguém deveria deixar passar é o contraste, porque a Arábia Saudita está entre os países que menos respeitam a diversidade sexual, e a Bruna faz questão de dizer que, sendo trans, o gesto dela é um grito de liberdade. Provocação com selo de causa, exatamente o tipo de combinação que o algoritmo bebe de canudinho.
Para mim, isso aqui é marketing de gente que sabe o que faz. A Bruna pegou o intervalo, esse vácuo que normalmente serve café requentado de análise tática, e transformou em produto exclusivo dela. Juntou futebol, plataforma adulta e bandeira política num pacote só, e ainda avisou que quer roubar o carinho da torcida brasileira nem que seja na marra, durante a pausa do jogo. Ousadia não falta, e estratégia muito menos.
No fim das contas, a Bruna descobriu o que emissora nenhuma admite em voz alta: tem muita gente que liga a transmissão pensando mais no intervalo do que no placar. E se depender dela, nessa Copa o VAR vai ser o menor dos problemas da diretoria.