Eu tinha finalmente encaixado a cabeça no travesseiro em Madri, cortina fechada, celular no silencioso, quando o aparelho acendeu no criado-mudo. Abri um olho só. Li a palavra Brasília, li a palavra swing e sentei na cama como quem levou um susto no cinema. Acabou o cochilo. Pedi um café pelo telefone do quarto e comecei a ler os números com a cara amassada.
Vamos ao Distrito Federal, porque a contradição está toda ali. A capital tem 32,9% de respondentes que já experimentaram a prática, o maior índice de conversão entre os cinco destinos pesquisados e quatro pontos acima da média nacional. Ao mesmo tempo, registra 17,1% de medo de julgamento, o segundo maior da lista, e 27,2% apontando a influência religiosa como obstáculo cultural, o índice mais alto do levantamento inteiro. Pratica e não assume. Faz e reza para ninguém comentar no elevador do bloco.

Tem mais coisa no raio X brasiliense. Os curiosos que nunca experimentaram somam 37,7%, e o interesse total bate impressionantes 96,5%. O perfil é masculinizado, com 83,8% de homens e 10,1% de mulheres respondendo, faixa dominante entre 35 e 44 anos. E o dado que explica tudo aparece no fim: o item que a galera do DF mais sente falta é conversa aberta sobre o assunto, com 60,5%. Traduzindo em português de Brasília, todo mundo sabe, ninguém fala, e o silêncio é institucional.
O resto do mapa também rende. O Rio de Janeiro lidera na prática efetiva, com 29,7% de praticantes ativos e mais de 61% dos cariocas dizendo que já viveram a experiência, além de liderar na regularidade. São Paulo mostra o paradoxo da metrópole, com 30,8% que já experimentaram e apenas 24,4% de praticantes ativos. Florianópolis concentra a maior demanda reprimida, com 44,6% de curiosos, e a maior proporção de relacionamentos abertos. Na Bahia, 31,6% praticam ativamente, e o principal atrativo apontado é conexão com outras pessoas. O Maranhão é o estado que mais enxerga a sociedade brasileira como aberta ao tema.
Dois mitos caem por terra na pesquisa e eu quero que vocês guardem estes. O primeiro é geográfico: proporcionalmente, quem lidera o ranking de praticantes ativos é Roraima, com 35,7%, seguido por Rio Grande do Norte e Bahia. O Sudeste que se acalme. O segundo é etário: 58,9% dos entrevistados acham que os millennials praticam mais, mas o maior índice real aparece entre pessoas de 55 a 64 anos. Sogra e sogro estão vivendo melhor que o casal de trinta anos que dorme de meia.
Tudo isso desemboca no dia 8 de agosto, o Dia do Swing, quando o Sexlog realiza a terceira edição do Swingaço, com casas parceiras em Salvador, Paço do Lumiar, Brasília, Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo. Em Brasília, a festa é na Fun Haus, no Setor Industrial. A data foi trazida ao país pelo casal Marina e Márcio, que conheceram a celebração num cruzeiro liberal nos Estados Unidos em 2017. Marina, sexóloga e terapeuta especializada em relações consensuais não monogâmicas, diz que o objetivo sempre foi tirar a cultura liberal da marginalidade.
Agora vou tentar voltar a dormir sabendo que a cidade dos três poderes tem o maior índice de conversão e o menor traquejo para conversar sobre o assunto. Existe algo de profundamente brasiliense nisso. É a única capital do mundo onde a pessoa vai à festa, volta para casa e no dia seguinte nega no grupo do condomínio com a mesma naturalidade de quem nega uma emenda.