Estava no Santos Dumont com a mala no rolê e o embarque chamando quando o celular tocou com a equipe da Netflix do outro lado da linha. Falei que tinha cinco minutos antes de subir a ponte, mas a conversa foi longe porque o assunto pedia. “Brasil 70: A Saga do Tri” estreia dia 29 de maio na plataforma, e a pré-estreia já havia acontecido na segunda-feira passada no Allianz Parque, em São Paulo, reunindo elenco, produção e convidados numa celebração à altura do tema. Uma série sobre o Tri, com Copa chegando, não é coincidência. É oportunidade.
O nome que eu precisava guardar é Hugo Haddad, mineiro de Belo Horizonte, ator e diretor que vive o goleiro Félix, titular da seleção na campanha do tricampeonato no México. Haddad é um nome do cinema documentário, área em que trabalhou por quase uma década, e traz para o personagem uma camada que vai além da reconstituição esportiva. Ele mesmo explicou, e a frase é boa: “Interpretar Félix exigiu compreender não apenas o atleta, mas também o contexto histórico e humano em torno daquela geração. Foi um processo de pesquisa e construção que atravessa esporte, memória e identidade brasileira.” Com essa profundidade toda, eu precisava ouvir mais.

O elenco em volta de Haddad é de respeito. Rodrigo Santoro vive João Saldanha, Bruno Mazzeo é Zagallo e Lucas Agrícola interpreta Pelé. A minissérie é produção da Netflix com a O2 Filmes, dividida em cinco capítulos, e revisita os bastidores esportivos, políticos e humanos de um dos momentos mais marcantes da história do futebol brasileiro. Não é só nostalgia de Copa, é retrato de época, e a combinação de nomes na frente das câmeras indica que o projeto levou o tema a sério.
E tem mais no currículo de Haddad: além da série, ele lança em breve seu primeiro longa-metragem como diretor, “À Sombra do Sol”, documentário sobre astronomia indígena que estreou em abril deste ano no Hot Docs Canadian International Documentary Festival, em Toronto. O homem não para. Entrou na ficção sem largar o cinema de ideia, e isso já diz muito sobre o que a gente vai encontrar na tela quando o Félix aparecer debaixo da trave.
Embarquei pensando em tudo isso e me dei conta de que o timing desta série não poderia ser melhor. Com Copa do Mundo batendo na porta, o Brasil inteiro vai querer revisitar 1970, aquela seleção que até hoje não foi superada em beleza de jogo. A Netflix entendeu o momento, a O2 Filmes trouxe o peso dramatúrgico, e Hugo Haddad carregou nas costas um dos personagens mais complexos daquele elenco histórico. O Félix nunca foi herói simples. Que bom que a série parece saber disso.
