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Kátia Flávia
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Boninho, sócio da Disney, manda comprar caixinha pirata do Paraguai

O diretor do Casa do Patrão disse ao vivo como burlar o bloqueio de captura do Disney+ e validou o dispositivo que a Polícia Federal apreende na fronteira

Kátia Flávia

23/04/2026 16h50

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Boninho, sócio da Disney, manda comprar caixinha pirata do Paraguai | Reprodução

Estava jantando aqui em Bari com uma produtora de televisão italiana que trabalhou com a RAI durante trinta anos, contando pra ela como funciona o mercado de entretenimento brasileiro, quando recebi uma mensagem de uma fonte que cobre a Record há anos. A mensagem tinha um ponto de exclamação e nada mais. Quando é só o ponto de exclamação, eu já sei: alguém importante disse uma burrice histórica em público.

O Casa do Patrão estreia na segunda-feira, dia 27, às 22h30, numa parceria milionária entre a Record e o Disney+. Boninho, diretor do programa e fundador da TV 4.0 após deixar a Globo em 2024, foi questionado numa coletiva oficial sobre como o público e a imprensa vão capturar conteúdo para as redes sociais, já que o Disney+ bloqueia tecnicamente a gravação direta do sinal. A resposta do diretor foi que existem “formas de burlar” essa restrição. Numa coletiva. Com câmera ligada. Com a Disney como sócia no mesmo contrato que paga as contas da produção.

O que Boninho chamou de “forma de burlar” tem um nome muito bem documentado nos tribunais brasileiros. A TV Box pirata, a famosa caixinha preta que entra no Brasil pela fronteira do Paraguai via Foz do Iguaçu, foi alvo em 2025 de uma operação da Polícia Federal e da Anatel que bloqueou R$ 33 milhões, confiscou imóveis e carros de luxo de uma rede criminosa que distribuía os aparelhos por todo o país. Usar o dispositivo para acessar streaming sem autorização é crime enquadrado no Artigo 184 do Código Penal, com pena de dois a quatro anos de reclusão para distribuidores e multa de até R$ 10 mil para o usuário final. Boninho não sugeriu isso com essas palavras, claro. Mas o efeito prático da declaração, num país onde “burlar o Disney+” tem endereço fixo no camelô da esquina, é esse.

Aqui é onde fica venenoso de verdade. Esse homem saiu da Globo depois de quarenta anos, fundou uma produtora própria, fechou o maior contrato da carreira solo dele com uma das empresas mais litigiosas do planeta em matéria de direitos autorais, e na primeira coletiva de imprensa do primeiro programa dessa parceria, entregou uma declaração que o departamento jurídico da Disney vai ler com a sobrancelha no teto.

O Brasil já está formalmente na lista de observação do governo americano por níveis considerados excessivos de pirataria de streaming, com Washington apontando o país como área de infração notável. A Disney sabe disso. Tem lobistas pagos para saber disso. E o sócio brasileiro acabou de virar material de relatório interno.

A caixinha preta agradece o apoio institucional. O advogado da Disney, nem tanto.

Confira o vídeo:

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