O vídeo de inteligência artificial que simulou Jair Bolsonaro durante a convenção do PL, em São Paulo, abriu uma bomba jurídica no lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. A peça foi exibida no sábado (25), com imagem e voz recriadas do ex-presidente pedindo apoio ao filho.
Acordei empolgada no Cosme Velho, piquei a melancia e botei tudo no liquidificador. Mas, minha filha, quando vi o “pai digital” aparecendo para entregar a sucessão ao filho, quase apertei o botão errado. Flávio lançou a candidatura no colo de um Bolsonaro que não estava lá, não falou e, ainda assim, ocupou o telão inteiro.

No vídeo, a simulação avisa: “Isso que vocês estão vendo aqui não sou eu, isso é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial”. Em seguida, a figura digital afirma que está “preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária” e declara: “O Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”.
A questão é que o aviso de IA não encerra a conversa. As regras do TSE exigem identificação explícita de conteúdo sintético, mas também proíbem deepfakes usados para favorecer ou prejudicar candidaturas. O tribunal informa que o descumprimento pode levar à remoção da peça, multa e, em determinadas circunstâncias, à apuração por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, com risco de cassação de registro ou mandato.
Foi aí que o suco ficou pronto e a fofoca ganhou diploma de Direito Eleitoral. Porque uma coisa é usar IA para botar fundo brilhante em vídeo de campanha; outra é recriar a voz de um ex-presidente para declarar apoio, escolher sucessor e pedir voto em uma convenção que oficializa candidatura.
O advogado Fernando Boscardín classificou a peça como “absolutamente ilegal” e disse que ela poderia configurar abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. A deputada Dandara Tonantzin (PT-MG) afirmou que acionaria a Procuradoria-Geral da República para pedir investigação sobre o vídeo.

Mas calma, porque o processo não é automático, e é aí que mora o suspense. A propaganda eleitoral só começa em 16 de agosto, enquanto a gravação foi exibida em convenção partidária. Especialistas ouvidos pela CNN avaliam que o caso deve ser questionado, mas caberá à Justiça Eleitoral definir como as regras de IA se aplicam ao episódio e se houve irregularidade concreta.
A candidatura de Flávio acaba de nascer e já ganhou um fantasma digital para administrar. Eu servi meu suco de melancia e fiquei pensando: em campanha eleitoral, o problema de chamar o pai de IA para a festa é que o TSE pode querer saber quem escreveu o convite, quem pagou o telão e quem achou que o aviso em letras pequenas resolveria tudo.