Eu estava na Capelinha das Aparições, em Fátima, acendendo minha vela com toda a devoção de quem atravessou Portugal de carro desde Sintra, quando o telefone vibrou dentro da bolsa. Era uma amiga da Globo, dessas que eu não entrego nem sob tortura, me adiantando os capítulos de Por Você. Gente, eu quase derrubei a vela no pé de uma senhora de Braga. Pedi perdão à Nossa Senhora pelo que ia pensar da Nair e saí de fininho para ouvir tudo no banco do Santuário.
A Nair vai aprontar de novo. Aquela mesma vizinha que acusou o Peixe de roubo no condomínio, sem prova nenhuma, vai chegar ao Hospital Luz para uma consulta de ginecologia e, quando descobrir que quem vai atender é a Bela, vai simplesmente se recusar a entrar no consultório. Vai pedir para remarcar, dizer que prefere outro médico e ainda vai tentar vender aquilo como escolha pessoal. Só que a Bela vai estar ali na recepção, ouvindo cada palavra, e vai dizer na cara dela, com todas as letras, que aquilo tem nome e o nome é racismo. E a Bela vai chamar a polícia, meu bem.

Agora prestem atenção no que vem depois, porque é o que me fez chorar no banco de Fátima. Levar a denúncia adiante vai custar caro para a Bela emocionalmente, vai fazer ela reviver lembranças que doem e ficar dividida entre engolir e seguir a vida ou transformar aquela humilhação em luta por reparação. Quem vai segurar a mão dela é o Vitor, que vai contar que já passou por coisa parecida e não deixou calar. O Gabriel vai se oferecer para acompanhar o caso juridicamente, e a Bela vai registrar a ocorrência. E não custa lembrar a quem acha que é exagero de novela: no Brasil, desde 2023, injúria racial foi equiparada ao crime de racismo, que é inafiançável e imprescritível. A Nair vai descobrir isso do jeito mais pedagógico possível.
E dentro do hospital vai ter climão de UTI. A minha xará Kátia, a Nelma, o Guto e outros funcionários vão fechar com a Bela. Já a Vanessa vai fazer o que eu mais detesto neste mundo: minimizar o caso, reclamar que a denúncia ficou pública e tratar tudo como exagero. É a postura de quem se preocupa com a reputação da empresa e esquece a médica humilhada no próprio corredor. Ainda bem que a Giovana vai rebater cada argumento dela e defender o direito da Bela de buscar justiça. Giovana, querida, se precisar de reforço eu pego o primeiro voo de Lisboa.

A Bela merece final feliz, plantão tranquilo e uma fila de pacientes pedindo para ser atendida por ela. Em casa, ela vai encontrar o abraço do Peixe, da Glorinha e do Ítalo, e o Lucas vai estar do lado dela o tempo todo, conversando sobre o quanto pessoas pretas ainda precisam provar o dobro para ter a competência reconhecida em lugar de prestígio. Já a Nair eu quero ver sentada na delegacia, explicando sua “preferência pessoal” para o delegado, porque nem Odete Roitman teria tanta cara de pau. Dino Cantelli e Juliana Peres acertaram em cheio, e eu saio de Fátima com uma prece a mais: que a Bela não recue um centímetro.